quinta-feira, 24 de março de 2016

Ano de 2007 - 1.ª etapa do Caminho Francês de Santiago, em bicicleta.

Saint Jean Pied-de-Port - Roncesvalles, 26 Kms

Texto António José Soares
St-Jean-Pied-de-Port
Deixada para trás  a Ville de Bayonne, a viagem no pequeno comboio vermelho serpenteando o rio  Nive, envolvido nas margens por frondoso arvoredo, parecia o excerto de um filme que nos inspira a viver sonho idílicos.

Neste caso o filme foi mesmo realidade e teve característica de série por capítulos, com o primeiro a terminar ou a começar em St-Jean-Pied-de-Port, deixo à escolha...

A ansiedade invadia-me há medida que me aproximava e ainda mais quando o pequeno comboio se deteve na estação de Saint Jean Pied-de-Port, na verdade o mesmo estado era partilhado pelos peregrinos que quase lotavam o comboio, a avaliar pelos seus rostos.

Por fim, pronto a iniciar o Caminho, dirigi-me ao centro e à velha cidadela fortificada, à qual não dediquei a atenção merecida, um pouco receoso pela minha inexperiência na gestão do tempo,  assim dediquei poucos momentos para conhecimento da harmoniosa e bonita cidade. Assustavam-me um pouco os 840 kms que teria que cumprir para chegar a Santiago de Compostela, em bicicleta, e, mais 300 até Coimbra.
Para iniciar o Caminho, de forma oficial, era necessário carimbar a Credencial do Peregrino, assim, dirigi-me à Oficina do Peregrino, situada na velha cidadela fortificada, fui atendido por um hospitaleiro francês, que me simpaticamente me ofereceu a Vieira,  símbolo do Caminho e me aconselhou a seguir pelo carimbar a Credencial do Peregrino e ficar com  a Vieira,  que simpaticamente me foi oferecida. Na conversa com um dos simpáticos voluntários,  que se encontravam a prestar apoio aos peregrinos, fui aconselhado a seguir pela rota mais bonita mas também a mais dura, a de Cisse.
Mais uma pequena voltinha pela cidade, culminando com a compra de alguns mantimentos. Finalmente allez, au chemin de St. Jacques de Compostelle .

O Caminho por Valcarlos

A minha intenção de enveredar pela Rota de Cisse, conforme conselho dos hospitaleiros, da Oficina do Peregrino, esbarrou na dificuldade dos primeiros metros, embora me tivessem dito que o Caminho suavizava após a parte inicial, muito íngreme. Assim, o desconhecimento, aliado a um pouco de receio e falta de experiência levaram-me a optar a seguir por Valcarlos, rota igualmente difícil, mas ainda assim, mais suave que a Rota de Cisse.
Os primeiros 8 quilómetros da rota de Cisse são realmente diabólicos, tal a sua inclinação. Ainda ousei começar a subir, mas, andar com a bicicleta à mão logo nos primeiros quilómetros, não fazia muito bem ao ego, e qualquer revés nesta fase inicial podia ser desmoralizador. A Rota por Valcarlos, envereda por um vale dotado de uma magnífica paisagem, com frondosos bosques de carvalhos, castanheiros e outras árvores que os meus parcos conhecimentos de botânica não deixaram identificar.Uma paragem para reabastecimento em Valcarlos, antes umas fotos na fronteira, novamente uma paragem para almoçar num local de beleza grandiosa, local onde parei para almoçar, aproveitando para estar à conversa com um sujeito escocês, que voltaria a encontrar em Roncesvalles.
Alto de Ibañeta
A etapa foi efectivamente muito dura, exigindo muito das pernas, logo para o primeiro dia, cerca de 24 quilómetros. Recompensador, é sempre a chegada ao alto da montanha, pelo menos para recarregar as baterias da moral.
sempre a subir, com um susto pelo meio. Um carneiro, não sei se selvagem, pastava mesmo junto à beirinha da estrada, olhou-me por baixo, fiquei todo arrepiado, mas o animal estava mais interessado na comida, felizmente para mim.

Quando a subida parece não acabar, desanimar é fatal, é preciso cerrar os dentes, procurar ser mais forte. Mas, quando finalmente se alcança o prémio da montanha, até parece que as pernas ganham outra vida.  No Alto de Ibaneta, foi um pouco assim que aconteceu, e, a paragem foi merecida.
Alberge de Peregrinos em Roncesvalles
A paisagem, a capela e o cruzeiro foram objecto de algumas fotos. Na descida para Roncesvalles, atingi a velocidade máxima de 54,82Km H. Percorri durante o dia cerca de 26 Kms, 29 incluindo a passeata madrugadora de Bayonne.
Andei a uma velocidade média de 11,32 Kms Hora, pedalei 04:09:14 H, para quem não dormiu toda a noite, e, a cama foi um banco de autocarro, nada mal.

O convívio multifacetado nos caminhos, é um dos aspectos mais gratificantes


Em Roncesvalles, o proprietário do café do Peregrino, aconselhou-me a pernoitar nesta localidade, tendo em conta que as horas e embora fossem ainda 15 H. 30 m, não sendo tarde, também já não seria muito cedo para arranjar dormida. Como estava ainda há pouco a viver a experiência, decidi seguir o conselho do referido senhor, e, não me aventurar por mais quilómetros.


Também era importante passear pela mítica povoação de Roncesvalles, aproveitar bem o momento, o lugar pareceu-me especial, senti-me bem, aqui decidi ficar a minha primeira noite no Caminho Francês.

terça-feira, 22 de março de 2016

VARIANTE ESPIRITUAL DO CAMINHO PORTUGUÊS A SANTIAGO – CAMINHO DE PONTEVEDRA AO SALNÉS EM 2015

“VILANOVA DE AROUSA – PRAIA DO TERRÓN”

O amigo João P. R. Simões falou-me na possibilidade de, no último fim-de-semana de Setembro, poder ir até à “Ria de Arousa”, na Galiza, para uma dupla jornada de caiaque. Logo me “pendurei” para o acompanhar, mas com a intenção de levar a bicicleta para pedalar pelas Rias Baixas.

E assim abalámos na “Princesinha” do Mondego até “Vilanova de Arousa”, em 25 de Setembro, onde chegaríamos próximo das duas da manhã de Sábado, ao parque de campismo "Paisaxe".





domingo, 10 de janeiro de 2016

Vieira símbolo do peregrino a Santiago


O uso da vieira pelo peregrino é explicado por uma lenda inserida na obra “Vidas e paixões dos apóstolos”, Lisboa, 1505. Diz a referida lenda que,  quando o barco que transportava o corpo do apóstolo passava ao lado de Portucale, tinha lugar em Bouças, designação anterior do concelho de Matosinhos, os festejos de noivado de um rico senhor da Maia com uma jovem  nobre de Gaia.
Foi então que o cavalo ficou bravo e meteu-se pelo mar dentro, onde se iria afogar, junto com o seu cavaleiro, mas foi de encontro ao barco que transportava o cadáver de São Tiago e, por milagre, emergiu com a roupa e o cabelo inçados de vieiras, que assim significavam o milagre do seu salvamento  e o seu agente salvador.

E foi assim que a concha da vieira passou a significar a protecção de São Tiago

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Aldeias do Xisto

Manto de neblina sobre a Lousã

Os serviços meteorológicos prognosticavam um sábado de sol radioso, no entanto a manhã, para os lados da Lousã, apresentava-se fresca, cinzenta, com muita neblina, ameaçando até alguma chuva. Nada, porém, que pudesse obstar a um bom passeio de bicicleta...




quarta-feira, 18 de novembro de 2015

5.º dia, de Cea a Santiago de Compostela.




Quinta Feira, 30 de Julho de 2015


 A caminho de Castro Dozón 
A chuva resolveu aparecer no derradeiro dia e como em Cea não encontrámos local onde comer, pedalámos em direcção a Castro Dozón, para o pequeno almoço no Café Ojea, em Arenteiro - Piñor, por sinal bastante acolhedor e onde reencontrámos entre outros a Cerezo e a  Simarro, de Valência, que também pernoitaram no albergue de Cea, e percorriam os kms que faltavam para terminar o Caminho, na companhia de mais dois peregrinos.





terça-feira, 17 de novembro de 2015

4.º Dia, Celanova - Cea, pelo Caminho Natural Interior de São Rosendo

Quarta-Feira, 29 de Julho de 2015.



Casa Torre Medieval
Em Celanova, o itinerário do Caminho de “San Rosendo” recomeça na “Plaza Mayor”, mesmo em frente ao mosteiro beneditino e finaliza na ponte romano-medieval de Ourense. Poucos quilómetros percorridos e logo se avista a pequena povoação de Vilanova dos Infantes, distingue-se pela sua paisagem e pelo pequeno núcleo urbano compacto e bem conservado, em redor da singular casa torre da Baixa Idade Média, de onde deverá observar, certamente, uma excelente panorâmica de todo o vale.


Vilanova dos Infantes 
Continuando pelo itinerário de São Rosendo, passámos pelas povoações de “Carfaxiño” e “Viveiro”, antes de chegar ao rio Arnoia, onde encontrámos uma área de lazer junto às suas margens. Continuámos por um estreito caminho ao longo da sua margem esquerda, acompanhados pelo constante murmúrio da água, até chegar a uma ponte de granito que nos permitiu passar para a outra margem...




3.º Dia do Caminho de Santiago por Celanova - A Via Nova e o Caminho de São Rosendo

Campo do Gerês
Terça Feira, 28 de Julho de 2015.

Foi com uma manhã de sol radioso que acordámos na magnífica Pousada de Juventude de Vilarinho das Furnas, situada na aldeia de Campo do Gerês, coração da serra, sobranceira à albufeira de Vilarinho das Furnas e próxima da Mata de Albergaria, não poderíamos ter escolhido melhor local para pernoitar. Assim, para aprimorar uma jornada que se antevia plena de interesse, nada melhor que um dia soalheiro.

Campo do Gerês
O pequeno almoço, simples, foi tomado na pousada, de onde partimos para esta terceira jornada, com o pensamento focado nas magníficas belezas naturais que esperávamos encontrar.
A temperatura estava ideal para o início da jornada, apesar do sol indiciar um forte aumento ao longo do dia. Assim, demos inicio às primeiras pedaladas pela aldeia de Campo do Gerês, vaidosa das suas habitações tradicionais, bem recuperadas e com outras em processo de recuperação... 



Revista Passear N.º 27 - Clique aqui para ver a crónica





quinta-feira, 24 de setembro de 2015

2.º Dia - De Braga a Campo do Gerês pela Geira ou Via Nova

Braga
Segunda Feira, 27 de Julho de 2015.

Depois de na véspera termos passeado tranquilamente pela cidade de Braga, seguiu-se uma noite de merecido repouso, recuperando do esforço da véspera. Pela manhã nada melhor que um reconfortante pequeno almoço, antes de iniciar a jornada há muito aguardada.



Azenha em ruínas - Rio Cávado
A intenção de passar pelo Mosteiro de São Martinho de Tibães ficou adiada para outra oportunidade, assim, do centro de Braga seguimos em direcção a Palmeira e à Ponte do Bico, sobre o rio Cávado, um local aprazível onde saltam à evidencia as ruínas de uma velha azenha, bem no meio do rio, o que adorna ainda mais este local de belo enquadramento paisagístico...





sábado, 5 de setembro de 2015

1.º Dia do Caminho Português de Santiago, por Celanova - Do Porto a Braga

Porto - Campanhã

Domingo, 26 de Julho de 2015.

Com o despertador apontado para as 5:00 H, não podia, de forma alguma, perder o comboio regional na Estação Velha, também baptizada de "Apeadeiro Velho"de Coimbra, uma vez que há muito tempo está a precisar de remodelação. 

Dei assim inicio, pela quarta vez consecutiva, ao Caminho Português de Santiago de Compostela, desta vez a partir do Porto, procurando seguir o Caminho da Geira Romana ou Via Nova, que ligava Braga e Astorga, passando por Rendufe, Caldelas, Sta Cruz - Amares, Covide, Campo do Gerês e Portela do Homem. 

Na Galiza, depois de Lobios continuámos por uma variante complementar da via nova antoniana, marcada a partir de Porto Quintela e seguindo por Bande, Celanova e Ourense, entrando a partir daqui na Via da Prata, ou no Caminho Sanabrês. Embora no ano transacto tivesse feito o Caminho da Costa, apenas na companhia da bicicleta, este ano voltou a reeditar-se o trio, que para além do autor destas linhas é constituído pelos amigos Joaquim Tavares e José Botelho.



quinta-feira, 13 de agosto de 2015

SkyTrail 3 - De Alvoco da Serra à Torre e descida para Vide

Paisagem serrana, imagem captada entre Alvôco e Loriga

O epílogo da jornada de três dias pelo maciços centrais das Serra da Lousã, São Pedro de Açor, e Estrela, terminou de forma fantástica na "Torre", em 30 de Março de 2015. No mesmo dia a arrepiante descida para Vide, atendendo às velocidades atingidas, constituiu a "mini etapa" de consagração de uma volta que deixou nos intervenientes o irresistível desejo de voltar a repetir, numa próxima oportunidade, proeza semelhante...



sábado, 25 de julho de 2015

Caminho Português de Santiago pela Geira ou Via Nova.

Coimbra, 25 de Julho de 2015, dia de Santiago.




Com partida prevista para as 04:50 H do próximo Domingo, os "meninos" da imagem acima já contam com 4,7Kg cada. Vai ser bem sofrida a subida do Gerês, que se perspectiva para o 2.º dia. No primeiro dia, do Porto percorremos parte do Caminho da Costa, até Esposende, invertendo depois Braga, onde contamos pernoitar,

Daqui seguiremos em direcção ao Gerês, pela Geira, até entroncarmos na Via da Prata, em Ourense.





segunda-feira, 6 de julho de 2015

Skytrail, Lousã-Açor-Estrela,

2.º dia, do Fajão a Alvoco da Serra

Sala transformada em albergue

A fadiga acumulada ao fim do primeiro dia começava a fazer alguns estragos no seio do pelotão, com alguns dos cicloturistas a ressentirem-se de um esforço a que não estão normalmente habituados, o destaque vai, por inteiro, para o Rui Salgado, sem dúvida o elemento que apresentava as maiores queixas.

Com a sala Fajão-Cultura, da Junta de Freguesia, transformada num autêntico albergue, à imagem dos Caminhos de Santiago, a noite antevia-se animada, aqui e ali abrilhantada por música de percussão original e de bom nível, com artistas exímios na execução.
Fajão - casario em xisto

Na verdade não foi fácil tranquilizar os rebeldes do pelotão, no entanto a fadiga acabou por falar mais alto, e, mesmo com a persistência de alguns ruídos, a quietude da noite instalou-se quase por completo.

Pouco tempo depois de surgirem os primeiros raios de sol, prepararam-se as bicicletas com os alforges e seguimos em romaria até ao único café aberto na localidade.


domingo, 21 de junho de 2015

O meu Caminho de Santiago para 2015

Com o falecido Zapatones, em 2012. Final do Caminho Português Interior de Santiago.
Falta pouco mais que um mês para iniciar novamente o Caminho Português de Santiago. 

Este ano após a viagem de comboio entre Coimbra e Porto, a intenção é seguir pelo bicicleta pela via central, por São Pedro de Rates, e, em Barcelos, inflectir para Braga, onde será obrigatória a passagem por São Martinho de Tibães e pelo  cenóbio de São Frutuoso de Montélios .


De Braga, rumaremos para Amares, Sta. Cruz, onde, pela Geira Romana, seguiremos por Covide, Campos do Gerês, Portela do Homem, e, já na Galiza, Torneiro, Lobios, Celanova e Allariz. Nesta localidade apanharemos a Via da Prata, por onde pretendemos seguir para Compostela, reeditando parte do Caminho já percorrido em 2012.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Compostela

A Credencial do Peregrino obtém-se em Santiago de Compostela na Oficina do Peregrino ou nas sés catedrais, situadas em cidades, pontos de passagem dos Caminhos de Santiago. Nomeadamente Lisboa, Coimbra e Porto, em Portugal;  Saint Jean-Pied-de-Port, França; Tui, Roncesvalles, Pamplona, Burgos, Léon, Salamanca..., em Espanha. 

Tem espaço reservado aos carimbos, "sellos". A credencial permite pernoitar em albergues exclusivamente destinados a peregrinos. Em Portugal permite beneficiar de desconto nas Pousadas de Juventude.

Para os que fizerem gosto, na Oficina do Peregrino, em Santiago de Compostela, é com a a credencial, devidamente carimbada, que se solicita a emissão da "Compostela". 

Mais informações em http://peregrinossantiago.es/esp/


Certificados, Fig.1, e credenciais, Fig.2, dos meus Caminhos: Francês, Finisterra e Muxia, Português Interior, Central Português ou do Lima e da Costa ou Nordeste.



Fig. 1 - Compostelhanas.
Fig. 2 - Credenciais 


sábado, 7 de fevereiro de 2015

Serra da Estrela

Manteigas - Trilhos Verdes

Para além do manto branco que é habitual apresentar em épocas mais frias, a Serra da Estrela, nas suas múltiplas vertentes, oferece uma diversidade paisagística notável.
A riqueza de fauna e flora, as cambiantes da morfologia entre as encostas que se estendem para além do Maciço Central, são elementos que pela sua raridade e beleza nos convidam, só por si, a conhecer as inúmeras rotas pedestres, algumas também acessíveis a bicicletas.

"Manteigas Trilhos Verdes" é um sítio onde podemos encontrar informação útil e esclarecedora para percorrer um conjunto apreciável de rotas e demais curiosidades sobre uma região tão vasta e atraente.   
Assim, fomos conhecer... 


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Caminho Português, 4.º dia, de "Arcade" a Santiago

Pelas Rias Baixas: Puente Sampayo, "Vrea Vella de A Canicouba", Pontevedra.


"Puente Sampaio - Rio Verdugo"
Domingo, 14 de Setembro de 2014. Arcade, após uma tranquila e reconfortante noite de descanso, a manhã apresentava-se cinzenta ameaçando trazer alguma chuva.
"Puente Sampaio"

No “Lar de Pepa”, albergue em que pernoitei depois da extenuante e magnífica jornada de Caminha até Arcade, relatada na Edição 42 da "Passear", mal saí do quarto, abeirei-me do terraço onde contemplei o casario que se estende até à ria de Vigo.

Depois de examinar as nuvens e tentar adivinhar se a chuva me acompanharia na jornada, recolhi ao quarto com o intuito de arrumar os alforges, inspeccionar a bicicleta e, por fim, partir para a derradeira jornada do Caminho Português de Santiago, pela Costa.




"Puente Sampaio, Ponte Nova -Rio Verdugo"
Como no Lar de Pepa não serviam o pequeno almoço, essencial para um bom começo de jornada, em Arcade entrei na "Pasteleria - Bar Acuña", onde me deliciei com um excelente pequeno almoço, indispensável para ajudar a vencer os 80 km que faltavam concluir até Santiago de Compostela, que não se anteviam fáceis, face à possibilidade de ocorrência de muita chuva.

Em "Puente Sampaio" a passagem sobre o rio Verdugo é efectuada através da Ponte Nova, ponte medieval de inegável beleza, construção de elevado valor arquitectónico.  O seu enquadramento e o enorme espelho que as águas do rio proporcionam convidam à  captação de raros instantâneos fotográficos.

Bem no meio da ponte, uma pausa para uns momentos de conversa com duas simpáticas  peregrinas naturais da Galiza, que acederam em captar o momento da minha passagem em Puente Sampaio. Depois de breves momentos de conversa sobre o "Caminho", urgia prosseguir em direcção a Pontevedra.
Peregrinas a Santiago

Com algum esforço lá fui subindo pelo antigo caminho empedrado, até à encruzilhada para “Nuestra Señora de Amil”, por um troço frequentado desde épocas mais remotas e onde são bem visíveis as marcas das rodas dos carros, sulcadas ao longo do tempos nas velhas lousas.






“Vrea Vella da Canicouba”
Os primeiros dez quilómetros, embora com a presença de alguma chuva, foram percorridos com a enorme satisfação de percorrer de bicicleta os trilhos para Santiago. Mesmo enfrentando uma ou outra subida mais árdua, o esforço compensa qualquer sacrifício adicional, que apetece perpetuar, tal a beleza do percurso e a espiritualidade associada, tonifica o todo o esforço desenvolvido, rolongando uma sensação boa no tempo.

A aproximação a Santiago de Compostela é sempre motivo de alegria e satisfação, mas, por outro lado, se pensarmos que é sinónimos de final de “Caminho”, com o inerente regresso ao bulício do quotidiano, então o sentimento é antagónico, advindo daí alguma insatisfação. É o Caminho...

Igreja Peregrina - Pontevedra
Pequenos momentos de conversa sucediam-se à medida que ia passando por peregrinos, cada vez em maior número. Pouco depois de "Puente Sampaio" encontra-se um dos locais mais emblemáticos e interessantes do Caminho Português, a "Vrea Vella de Canicouba" e a velha ponte desaparecida que marcava o início da subida de "A Canicouba". Com  os chuviscos a borrifarem-me o rosto e obrigado a tirar os óculos, subi a bom ritmo, gozando depois a descida para Pontevedra, a rolar a muito boa velocidade.



Ponte do Burgo - Pontevedra

Domingo em Pontevedra, na cidade ainda adormecida, predominava a presença de peregrinos entre os poucos transeuntes e fascinas de estabelecimentos.

Pontevedra dá também o nome à província, capital das “Rias Baixas”. É indubitavelmente uma das cidade históricas da Galiza, detentora de um vasto e valoroso património arquitectónico merecedor da nossa atenção.



Em Santa Maria de Alba
Depois de posar para a foto diante do singular santuário da Virgem Peregrina, segui as vieiras, pela "Ponte do Burgo", deixando para trás Pontevedra. Definitivamente, tinha abandonado a ideia de pedalar pela  Rota do Salnés, Variante Espiritual ao Caminho Português", da qual encontrei as indicações, já fora da urbe, próximo da linha de caminho de ferro.

Resolvi seguir pela rota tradicional, uma vez que a opção pelo Salnés implicaria mais um dia de caminho e ligeira derrapagem nos custos da viagem. Adiei, assim, para uma próxima oportunidade.



Após a passagem sob a linha do caminho de ferro, depois de uma ligeira subida alcancei a Igreja de “Santa Maria de Alba” com uma imagem do Apóstolo no cemitério. Muito próximo fica o antigo lugar de “Goxilde”, onde o Arcebispo “Xelmírez” descansou com as suas hostes, a caminho de Compostela, depois de efectuar o famoso “Pío Latrocínio” de relíquias em Braga.


Espírito do Caminho

Continuando a pedalar na manhã fresca e molhada, o verde sombrio da vegetação convidava ao recolhimento espiritual, mesmo a pedalar, ora pelos bosques de carvalhos, castanheiros e outras espécies, aqui e ali com pequenos cursos de água a completar um quadro paisagístico notável, ora por campos agrícolas tratados com afeição e harmoniosamente dispostos.





Ponto de encontro de peregrinos

O Caminho passa, entre outras, bem no centro das povoações das de Caldas dos Reis, Iria Flavia”, “Padrón”, “Esclavitude”, com a sua fonte milagrosa e o esplendoroso exemplar do barroco que é o “Santuário da Eslavitude”, séc. VII-XVIII.







O encontro com peregrinos foi uma constante
É assim, num cenário único, diversificado e em movimento, que se desenvolve com uma intensidade cada vez mais forte o Espírito do Caminho, seja por convicção religiosa ou outra de diferente natureza. o que importa é sentir o seu efeito.


Peregrinos a Santiago
A forma de estar no Caminho proporciona e apela a conversas espontâneas, entre caminhantes, pessoas que têm seguramente algo em comum: a paixão por "Compostelae" ou Campo da Estrela.

O convívio, a entre ajuda e a solidariedade, estão presentes em todos os que procuram vivências nas peregrinações a Santiago e assim é comum ouvir-se falar do Espírito do Caminho a todos quantos o percorrem ou percorreram.

Um dos momentos mais gratificantes nesta minha última jornada aconteceu numa paragem para reabastecimento alimentar, efectuada no albergue “Catro Canos”, propriedade de Manuel, que junto com a família mantêm este mítico espaço aberto e proporcionam um acolhimento de excelência aos peregrinos, quer no trato ou no repasto.


Em cima: Albergue "Catro Canos", Em baixo: Caldas dos Reis
Enquanto me deliciava com uma porção de saborosa “tortilla”, plantei-me à conversa com Manuel, o estalajadeiro, quase esquecendo o tempo a passar. Se dispusesse de mais tempo livre, teria certamente por ali ficado uma tarde, a conhecer a região circundante.

No “Catro Canos” estão assinalados 24 km na direcção de Ponte Pontevedra e 44 km a Santiago. Somando os cerca de 10 km de Arcade até Pontevedra, significa que já tinha pedalado cerca de 34 km.

Antes de alcançar “Pontecesures” encontrei dois portugueses de Viseu, a fazer pela primeira vez o Caminho de bicicleta, bons conversadores, acabámos por fazer parte do caminho juntos, mas perto do final pedi que fossem andando, uma vez que estava sempre a parar para captar imagens.



Em cima: Concelho de Valga. Em baixo: "Pontecesures", Fonte Santa - "Esclavitude" e Espigueiro 
Em virtude das inúmeras paragens efectuadas, que cortam sempre o ritmo, mesmo ao melhor ciclista, a jornada acabou por ser cansativa, também em razão dos quilómetros acumulados.

Este ano foi algo diferente a chegada a Santiago, não foi possível aceder, como é da tradição, à Praça do “Obradoiro”, a mesma estava cortada devido à última etapa da “Vuelta à España”.o que aliás me pareceu uma ideia irreflectida.
Levar o circo de uma grande prova velocipédica para um espaço de características tão próprias, que nunca deve estar vedado a peregrinos! ... Enfim!…

Com a "Compostela" do Caminho da Costa 2014
Logo que me acerquei das imediações da Catedral, desabou uma chuva copiosa. Carimbei a credencial na Oficina do Peregrino, ainda tentei deambular um pouco pelas ruas, mas em dia de chegada da “Vuelta”, a cidade estava impossível, com imensa gente pelas ruas.

Foi então que decidi partir de imediato em direcção à gare, onde, para além de adquirir bilhete, tratei de providenciar uma pequena refeição, para depois partir de comboio com intenção de pernoitar em Redondela.


Um regresso atribulado, ou uma história dos Caminhos...

De Vigo a A Guarda, por Baiona



Vigo, zona portuária

Às 20:00, iniciei o regresso no comboio da Renfe, nos primeiros minutos de viagem ainda mantive os olhos vigilantes, mas pouco tempo depois não resisti ao cansaço e adormeci ali mesmo na composição. A distracção saiu bem cara, pois pretendia dormir no Albergue de Redondela, para, no dia seguinte, viajar de comboio até Portugal. Ora de repente estou na estação de Vigo, apenas com vinte euros no bolso, a ter que encontrar dormida.

Necessariamente seria preciso algum dinheiro mais para dormir numa pensão, por mais barata que fosse.


Navio de pesca Coimbra na doca de Vigo
Segunda contrariedade, não consegui levantar dinheiro!!! Através do messenger, apelei ao mítico amigo dos Caminhos, José de La Riera, de Muxia, personagem grande da cultura Galega, para ver se me podia ajudar a encontrar algum albergue ou alojamento mais em conta.

Amavelmente disse-me que dormiria em casa dele, só que a mesma dista de Vigo para aí uns 70 km. Mas, não podendo ajudar de outra forma, lembrou-se de me enviar o número de telefone de Luís Freixo, que dirige um Albergue na zona da Ramallosa e tem sido um dos grandes dinamizadores do Caminho da Costa.


No entanto o Luís Freixo não me atendia o telefone. Continuando então a procurar alguns alojamentos, sem sucesso. Fazia já cálculos para regressar de bicicleta, nessa mesma noite, para Portugal, empresa algo arriscada e nada recomendável, quando surgiu a minha salvação.

O Luís devolvia-me a chamada, ante o meu relato, depressa me aconselhou a não seguir de noite de bicicleta. Demasiado arriscado.
Depois de efectuar alguns contactos ligou-me novamente com novidades. Tinha-me conseguido alojamento mais acessível monetariamente na pensão "Três Países", nas imediações do "El Corte Inglês".

Para além de me ter salvo, mais me disse que, caso necessitasse, na manhã seguinte poderia dirigir-me ao "Mezon Plaza", café que habitualmente frequenta, tendo sido o que aconteceu.


"Ramallosa"
Mas no "Mezon Plaza" alguém se esqueceu de passar a palavra e tive que gastar quase tudo o que me restava num parco pequeno almoço.

Com apenas um euro e alguns cêntimos no bolso até chegar a Portugal, decidi empregá-los em fruta e assim abalei para Portugal, em direcção à zona portuária, seguindo depois pelo "Samil", "Ramallosa", Baiona, em suma fiz o percurso inverso do Caminho da Costa, até Caminha.


Baiona
Mas a generosidade  e sentido prestável do Luís Freixo ainda não tinha ficado por aqui. Quando pedalava a caminho de Baiona, recebi uma mensagem a lamentar o sucedido no Mezon Plaza e que me aguardavam no albergue "Aguncheiro", quando chegasse a Mougas.

Pela ciclovia de Baiona a A Guarda
De Baiona até A Guarda passei um verdadeiro tormento, com o vento Sul pela frente,  bem junto ao mar, quase me apetecia chorar de raiva por não conseguir passar dos 12, 14 km/h, mesmo a descer. Se a paisagem oferecia uma panorâmica deslumbrante, o vento a soprar em sentido adverso constituiu um autêntico pesadelo, mas assim tive que continuar.


E foi assim, a lutar contra o vento que, esgotado, cheguei ao albergue Aguncheiro. Entrei e falei que o amigo Luís Freixo me recomendado ali parar.

Imagem do vento Sul
De imediato perguntaram o que queria comer, perante a minha modéstia e receio de estar a exorbitar da hospitalidade, insistiram para que comesse algo à minha escolha. Perante algum constrangimento da minha parte serviram-me uma suculenta costeleta de vaca, acompanhada com pimentos de Padrón e batata frita. Jamais esquecerei o Aguncheiro...

"Aguncheiro - em Mougas"
Montar novamente a bicicleta continuou a ser um tormento, o vento não parava. Pedalei, pedalei, pedalei e as pernas mais pareciam dois cepos pesados, com os músculos bem rígidos e disformes.

Finalmente a 1,5 km de A Guarda, apareceu o João Paulo Reis Simões, que me foi resgatar a Caminha, respirei  finalmente de alívio e satisfação.

Não me posso lamentar de falta de apoio dos amigos, neste caso o JPRS, já em 2007, quando finalizei o Caminho Francês, também me transportou de Santiago de Compostela até Coimbra. Agora foi a vez de me A Guarda salvar-me do vento Sul, que afrontava a pobre da Trek.

Espero bem que me acompanhe um dia com a sua bicicleta, quem sabe em 2015? Em 2014 já ensaiou os primeiros 100 km entre Aveiro e Porto.

Santa Maria de Oia
A atormentar a viagem de regresso, entre Baiona e A Guarda, o vento Sul transformou o prazer de pedalar descontraidamente, pela ciclovia, junto à orla marítima, numa autêntica luta titânica. O tremendo esforço desenvolvido a pedalar subtraiu-me a possibilidade de desfrutar da maravilhosa paisagem costeira e ainda me furtou a possibilidade de visitar o Mosteiro de Oia. Mas o balanço final não podia deixar de ser positivo, mesmo com a CP a não permitir que transportasse a bicicleta no comboio, com um pouco de visão preparavam uma carruagem para o efeito, certamente teriam muitos interessados a procurar o serviço.

Por fim os meus agradecimentos a quem me apoiou na empresa solitária, à Sandra Marina, ao João Paulo Simões, José Botelho, Joaquim Tavares, António Pedro, à Carolina e à Mariana, pelas mensagens de incentivo.

Um agradecimento especial a dois amigos da Galiza, o José de La Riera e o Luís Freixo, que me ajudaram numa altura difícil. Obrigado a todos e Bom Caminho.