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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Caminho Português, 4.º dia, de "Arcade" a Santiago

Pelas Rias Baixas: Puente Sampayo, "Vrea Vella de A Canicouba", Pontevedra.


"Puente Sampaio - Rio Verdugo"
Domingo, 14 de Setembro de 2014. Arcade, após uma tranquila e reconfortante noite de descanso, a manhã apresentava-se cinzenta ameaçando trazer alguma chuva.
"Puente Sampaio"

No “Lar de Pepa”, albergue em que pernoitei depois da extenuante e magnífica jornada de Caminha até Arcade, relatada na Edição 42 da "Passear", mal saí do quarto, abeirei-me do terraço onde contemplei o casario que se estende até à ria de Vigo.

Depois de examinar as nuvens e tentar adivinhar se a chuva me acompanharia na jornada, recolhi ao quarto com o intuito de arrumar os alforges, inspeccionar a bicicleta e, por fim, partir para a derradeira jornada do Caminho Português de Santiago, pela Costa.




"Puente Sampaio, Ponte Nova -Rio Verdugo"
Como no Lar de Pepa não serviam o pequeno almoço, essencial para um bom começo de jornada, em Arcade entrei na "Pasteleria - Bar Acuña", onde me deliciei com um excelente pequeno almoço, indispensável para ajudar a vencer os 80 km que faltavam concluir até Santiago de Compostela, que não se anteviam fáceis, face à possibilidade de ocorrência de muita chuva.

Em "Puente Sampaio" a passagem sobre o rio Verdugo é efectuada através da Ponte Nova, ponte medieval de inegável beleza, construção de elevado valor arquitectónico.  O seu enquadramento e o enorme espelho que as águas do rio proporcionam convidam à  captação de raros instantâneos fotográficos.

Bem no meio da ponte, uma pausa para uns momentos de conversa com duas simpáticas  peregrinas naturais da Galiza, que acederam em captar o momento da minha passagem em Puente Sampaio. Depois de breves momentos de conversa sobre o "Caminho", urgia prosseguir em direcção a Pontevedra.
Peregrinas a Santiago

Com algum esforço lá fui subindo pelo antigo caminho empedrado, até à encruzilhada para “Nuestra Señora de Amil”, por um troço frequentado desde épocas mais remotas e onde são bem visíveis as marcas das rodas dos carros, sulcadas ao longo do tempos nas velhas lousas.






“Vrea Vella da Canicouba”
Os primeiros dez quilómetros, embora com a presença de alguma chuva, foram percorridos com a enorme satisfação de percorrer de bicicleta os trilhos para Santiago. Mesmo enfrentando uma ou outra subida mais árdua, o esforço compensa qualquer sacrifício adicional, que apetece perpetuar, tal a beleza do percurso e a espiritualidade associada, tonifica o todo o esforço desenvolvido, rolongando uma sensação boa no tempo.

A aproximação a Santiago de Compostela é sempre motivo de alegria e satisfação, mas, por outro lado, se pensarmos que é sinónimos de final de “Caminho”, com o inerente regresso ao bulício do quotidiano, então o sentimento é antagónico, advindo daí alguma insatisfação. É o Caminho...

Igreja Peregrina - Pontevedra
Pequenos momentos de conversa sucediam-se à medida que ia passando por peregrinos, cada vez em maior número. Pouco depois de "Puente Sampaio" encontra-se um dos locais mais emblemáticos e interessantes do Caminho Português, a "Vrea Vella de Canicouba" e a velha ponte desaparecida que marcava o início da subida de "A Canicouba". Com  os chuviscos a borrifarem-me o rosto e obrigado a tirar os óculos, subi a bom ritmo, gozando depois a descida para Pontevedra, a rolar a muito boa velocidade.



Ponte do Burgo - Pontevedra

Domingo em Pontevedra, na cidade ainda adormecida, predominava a presença de peregrinos entre os poucos transeuntes e fascinas de estabelecimentos.

Pontevedra dá também o nome à província, capital das “Rias Baixas”. É indubitavelmente uma das cidade históricas da Galiza, detentora de um vasto e valoroso património arquitectónico merecedor da nossa atenção.



Em Santa Maria de Alba
Depois de posar para a foto diante do singular santuário da Virgem Peregrina, segui as vieiras, pela "Ponte do Burgo", deixando para trás Pontevedra. Definitivamente, tinha abandonado a ideia de pedalar pela  Rota do Salnés, Variante Espiritual ao Caminho Português", da qual encontrei as indicações, já fora da urbe, próximo da linha de caminho de ferro.

Resolvi seguir pela rota tradicional, uma vez que a opção pelo Salnés implicaria mais um dia de caminho e ligeira derrapagem nos custos da viagem. Adiei, assim, para uma próxima oportunidade.



Após a passagem sob a linha do caminho de ferro, depois de uma ligeira subida alcancei a Igreja de “Santa Maria de Alba” com uma imagem do Apóstolo no cemitério. Muito próximo fica o antigo lugar de “Goxilde”, onde o Arcebispo “Xelmírez” descansou com as suas hostes, a caminho de Compostela, depois de efectuar o famoso “Pío Latrocínio” de relíquias em Braga.


Espírito do Caminho

Continuando a pedalar na manhã fresca e molhada, o verde sombrio da vegetação convidava ao recolhimento espiritual, mesmo a pedalar, ora pelos bosques de carvalhos, castanheiros e outras espécies, aqui e ali com pequenos cursos de água a completar um quadro paisagístico notável, ora por campos agrícolas tratados com afeição e harmoniosamente dispostos.





Ponto de encontro de peregrinos

O Caminho passa, entre outras, bem no centro das povoações das de Caldas dos Reis, Iria Flavia”, “Padrón”, “Esclavitude”, com a sua fonte milagrosa e o esplendoroso exemplar do barroco que é o “Santuário da Eslavitude”, séc. VII-XVIII.







O encontro com peregrinos foi uma constante
É assim, num cenário único, diversificado e em movimento, que se desenvolve com uma intensidade cada vez mais forte o Espírito do Caminho, seja por convicção religiosa ou outra de diferente natureza. o que importa é sentir o seu efeito.


Peregrinos a Santiago
A forma de estar no Caminho proporciona e apela a conversas espontâneas, entre caminhantes, pessoas que têm seguramente algo em comum: a paixão por "Compostelae" ou Campo da Estrela.

O convívio, a entre ajuda e a solidariedade, estão presentes em todos os que procuram vivências nas peregrinações a Santiago e assim é comum ouvir-se falar do Espírito do Caminho a todos quantos o percorrem ou percorreram.

Um dos momentos mais gratificantes nesta minha última jornada aconteceu numa paragem para reabastecimento alimentar, efectuada no albergue “Catro Canos”, propriedade de Manuel, que junto com a família mantêm este mítico espaço aberto e proporcionam um acolhimento de excelência aos peregrinos, quer no trato ou no repasto.


Em cima: Albergue "Catro Canos", Em baixo: Caldas dos Reis
Enquanto me deliciava com uma porção de saborosa “tortilla”, plantei-me à conversa com Manuel, o estalajadeiro, quase esquecendo o tempo a passar. Se dispusesse de mais tempo livre, teria certamente por ali ficado uma tarde, a conhecer a região circundante.

No “Catro Canos” estão assinalados 24 km na direcção de Ponte Pontevedra e 44 km a Santiago. Somando os cerca de 10 km de Arcade até Pontevedra, significa que já tinha pedalado cerca de 34 km.

Antes de alcançar “Pontecesures” encontrei dois portugueses de Viseu, a fazer pela primeira vez o Caminho de bicicleta, bons conversadores, acabámos por fazer parte do caminho juntos, mas perto do final pedi que fossem andando, uma vez que estava sempre a parar para captar imagens.



Em cima: Concelho de Valga. Em baixo: "Pontecesures", Fonte Santa - "Esclavitude" e Espigueiro 
Em virtude das inúmeras paragens efectuadas, que cortam sempre o ritmo, mesmo ao melhor ciclista, a jornada acabou por ser cansativa, também em razão dos quilómetros acumulados.

Este ano foi algo diferente a chegada a Santiago, não foi possível aceder, como é da tradição, à Praça do “Obradoiro”, a mesma estava cortada devido à última etapa da “Vuelta à España”.o que aliás me pareceu uma ideia irreflectida.
Levar o circo de uma grande prova velocipédica para um espaço de características tão próprias, que nunca deve estar vedado a peregrinos! ... Enfim!…

Com a "Compostela" do Caminho da Costa 2014
Logo que me acerquei das imediações da Catedral, desabou uma chuva copiosa. Carimbei a credencial na Oficina do Peregrino, ainda tentei deambular um pouco pelas ruas, mas em dia de chegada da “Vuelta”, a cidade estava impossível, com imensa gente pelas ruas.

Foi então que decidi partir de imediato em direcção à gare, onde, para além de adquirir bilhete, tratei de providenciar uma pequena refeição, para depois partir de comboio com intenção de pernoitar em Redondela.


Um regresso atribulado, ou uma história dos Caminhos...

De Vigo a A Guarda, por Baiona



Vigo, zona portuária

Às 20:00, iniciei o regresso no comboio da Renfe, nos primeiros minutos de viagem ainda mantive os olhos vigilantes, mas pouco tempo depois não resisti ao cansaço e adormeci ali mesmo na composição. A distracção saiu bem cara, pois pretendia dormir no Albergue de Redondela, para, no dia seguinte, viajar de comboio até Portugal. Ora de repente estou na estação de Vigo, apenas com vinte euros no bolso, a ter que encontrar dormida.

Necessariamente seria preciso algum dinheiro mais para dormir numa pensão, por mais barata que fosse.


Navio de pesca Coimbra na doca de Vigo
Segunda contrariedade, não consegui levantar dinheiro!!! Através do messenger, apelei ao mítico amigo dos Caminhos, José de La Riera, de Muxia, personagem grande da cultura Galega, para ver se me podia ajudar a encontrar algum albergue ou alojamento mais em conta.

Amavelmente disse-me que dormiria em casa dele, só que a mesma dista de Vigo para aí uns 70 km. Mas, não podendo ajudar de outra forma, lembrou-se de me enviar o número de telefone de Luís Freixo, que dirige um Albergue na zona da Ramallosa e tem sido um dos grandes dinamizadores do Caminho da Costa.


No entanto o Luís Freixo não me atendia o telefone. Continuando então a procurar alguns alojamentos, sem sucesso. Fazia já cálculos para regressar de bicicleta, nessa mesma noite, para Portugal, empresa algo arriscada e nada recomendável, quando surgiu a minha salvação.

O Luís devolvia-me a chamada, ante o meu relato, depressa me aconselhou a não seguir de noite de bicicleta. Demasiado arriscado.
Depois de efectuar alguns contactos ligou-me novamente com novidades. Tinha-me conseguido alojamento mais acessível monetariamente na pensão "Três Países", nas imediações do "El Corte Inglês".

Para além de me ter salvo, mais me disse que, caso necessitasse, na manhã seguinte poderia dirigir-me ao "Mezon Plaza", café que habitualmente frequenta, tendo sido o que aconteceu.


"Ramallosa"
Mas no "Mezon Plaza" alguém se esqueceu de passar a palavra e tive que gastar quase tudo o que me restava num parco pequeno almoço.

Com apenas um euro e alguns cêntimos no bolso até chegar a Portugal, decidi empregá-los em fruta e assim abalei para Portugal, em direcção à zona portuária, seguindo depois pelo "Samil", "Ramallosa", Baiona, em suma fiz o percurso inverso do Caminho da Costa, até Caminha.


Baiona
Mas a generosidade  e sentido prestável do Luís Freixo ainda não tinha ficado por aqui. Quando pedalava a caminho de Baiona, recebi uma mensagem a lamentar o sucedido no Mezon Plaza e que me aguardavam no albergue "Aguncheiro", quando chegasse a Mougas.

Pela ciclovia de Baiona a A Guarda
De Baiona até A Guarda passei um verdadeiro tormento, com o vento Sul pela frente,  bem junto ao mar, quase me apetecia chorar de raiva por não conseguir passar dos 12, 14 km/h, mesmo a descer. Se a paisagem oferecia uma panorâmica deslumbrante, o vento a soprar em sentido adverso constituiu um autêntico pesadelo, mas assim tive que continuar.


E foi assim, a lutar contra o vento que, esgotado, cheguei ao albergue Aguncheiro. Entrei e falei que o amigo Luís Freixo me recomendado ali parar.

Imagem do vento Sul
De imediato perguntaram o que queria comer, perante a minha modéstia e receio de estar a exorbitar da hospitalidade, insistiram para que comesse algo à minha escolha. Perante algum constrangimento da minha parte serviram-me uma suculenta costeleta de vaca, acompanhada com pimentos de Padrón e batata frita. Jamais esquecerei o Aguncheiro...

"Aguncheiro - em Mougas"
Montar novamente a bicicleta continuou a ser um tormento, o vento não parava. Pedalei, pedalei, pedalei e as pernas mais pareciam dois cepos pesados, com os músculos bem rígidos e disformes.

Finalmente a 1,5 km de A Guarda, apareceu o João Paulo Reis Simões, que me foi resgatar a Caminha, respirei  finalmente de alívio e satisfação.

Não me posso lamentar de falta de apoio dos amigos, neste caso o JPRS, já em 2007, quando finalizei o Caminho Francês, também me transportou de Santiago de Compostela até Coimbra. Agora foi a vez de me A Guarda salvar-me do vento Sul, que afrontava a pobre da Trek.

Espero bem que me acompanhe um dia com a sua bicicleta, quem sabe em 2015? Em 2014 já ensaiou os primeiros 100 km entre Aveiro e Porto.

Santa Maria de Oia
A atormentar a viagem de regresso, entre Baiona e A Guarda, o vento Sul transformou o prazer de pedalar descontraidamente, pela ciclovia, junto à orla marítima, numa autêntica luta titânica. O tremendo esforço desenvolvido a pedalar subtraiu-me a possibilidade de desfrutar da maravilhosa paisagem costeira e ainda me furtou a possibilidade de visitar o Mosteiro de Oia. Mas o balanço final não podia deixar de ser positivo, mesmo com a CP a não permitir que transportasse a bicicleta no comboio, com um pouco de visão preparavam uma carruagem para o efeito, certamente teriam muitos interessados a procurar o serviço.

Por fim os meus agradecimentos a quem me apoiou na empresa solitária, à Sandra Marina, ao João Paulo Simões, José Botelho, Joaquim Tavares, António Pedro, à Carolina e à Mariana, pelas mensagens de incentivo.

Um agradecimento especial a dois amigos da Galiza, o José de La Riera e o Luís Freixo, que me ajudaram numa altura difícil. Obrigado a todos e Bom Caminho.




domingo, 29 de setembro de 2013

Pontevedra a Santiago de Compostela, 75 km.

03 de Agosto de 2012, 5.º dia.


Albergue de Pontevedra
Primeiro Sábado de Agosto,  acordámos para a derradeira jornada do Caminho, após cumpridas as exigências indispensáveis deixámos o albergue de Pontevedra, procurando local para tomar o pequeno-almoço. 

Bem no centro da cidade, próximo da ria, encontrámos finalmente uma cafetaria onde os clientes eram maioritariamente peregrinos. Ao balcão, um "borracho" bebia uma cerveja, ao mesmo tempo que tirava do sério o proprietário do estabelecimento.


Pontevedra despertava timidamente, apenas nas proximidades do mercado municipal era visível alguma agitação matinal. Alguns "borrachos" ainda deambulavam pelas ruas. Mas o destaque ia, sem dúvida, para a quantidade de peregrinos, de todas as idades e nacionalidades, que faziam o Caminho Português.

Pontevedra - Início da 5.ª Jornada

Os primeiros quilómetros, após Pontevedra, sempre na companhia de muitos peregrinos, no Caminho ninguém está só, mesmo os que, por qualquer motivo, pretendam percorrê-lo nessa condição.


Junto à igreja de Santa María de Alba
Continuámos na companhia de muitos peregrinos, junto à igreja de Santa Maria de Alba estive à conversa com peregrinos provenientes de Cádis, ainda perguntei se conheciam Camilo, um amigo que fez comigo o Caminho Francês em 2007, embora as probabilidades fossem muito poucas.

Por  Caldas de ReisValga 

A beleza do percurso estampa-se nas imagens que apresento, mas é difícil descrever o sentimento que interiorizamos.
A aproximação a Santiago é um estado antagónico, por um lado queremos chegar depressa, por outro apetece continuar no Caminho.


A imagem que se repete todos os anos na Praça do Obradoiro, por muito idêntica que possa parecer, encontra sempre particularidades diferentes, o sentimento é sempre novo.

Praça do Obradoiro 


Finalmente a chegada a Santiago de Compostela, pelas 16:16, estava feito o meu Caminho Português,  a via mais percorrida, entre Coimbra a Santiago estava por fim concluída. Agora, sempre que passe em Tui não preciso de me lamentar de ainda não ter feito o Caminho Português, como acontecia anteriormente.
Após a conclusão do Caminho Português de Santiago, em 2012 pelo interior, e agora o Caminho Central, a vontade e a determinação de continuar a pedalar em direcção a Compostela mantém-se, quiçá ainda mais acesa. O sonho de repetir o Caminho Francês está latente, assim existam condições para o tornar uma realidade. Porém, enquanto tal não acontece, há que pensar em fazer outros Caminhos mais acessíveis...

Fotos do 5.º dia


sábado, 28 de setembro de 2013

Crónica do 4.º dia do Caminho Português, entre Rubiães e Pontevedra

Rubiães, 02 de Agosto de 2013.

 A noite foi atribulada, um peregrino de nacionalidade alemã passou mal, pelo que foi necessário chamar por socorro médico. Na altura não percebemos bem o que se estava a passar, pensei, inclusive, que seriam os primeiros peregrinos a sair do albergue. O Aguiar continuou sempre ferrado que nem uma pedra, não deu por nada. Finalmente uma noite sem que se tivesse dado  por ele. 

Este dia iria ser diferente dos anteriores, saímos do albergue, pelas 07:56,  à medida que se progredia no Caminho, encontrávamos cada vez mais peregrinos. O pequeno almoço foi tomado em Rubiães, onde contámos com a simpatia  e boa disposição do proprietário.

Primeiras horas do Caminho, após saída do albergue de Rubiães

Na véspera, apesar de termos chegado tarde ainda convivemos um pouco com alguns peregrinos espanhóis, fiquei também a saber pela Olívia, de Viana do Castelo, que as melhores Bolas de Berlim são as do Manel e não do Zé, estou a referir-me ao Natário, que tem as melhores Bolas de Berlim do Mundo. 

Após o pequeno almoço aproveitei para trocar contactos com o Vítor Matos, de Coimbra, que fazia a peregrinação na companhia de um espanhol de Saragoça e de uma rapariga de Valência.

A jornada que marcou a entrada do Caminho Português por terras da Galiza,  foi caracterizada pelas frequentes paragens, ora para trocar dois dedos de prosa com os peregrinos, ora para as indispensáveis fotos, ou para reabastecimento.

Continuámos a passar pelos peregrinos que viajavam quer em grupos quer individualmente e a transmitir a saudação habitual: Bom Caminho. 

Antiga ponte do rio Minho
Em São Bento da Porta Aberta, continuámos por terreno montanhoso, em direcção a Gontomil, altura em que houve lugar para uma foto de conjunto com cerca de  40 a 50 peregrinos americanos. Após este animado encontro, seguiu-se a Olívia de Viana do Minho e as suas divertidas colegas valencianas. 
A entrada em Valença foi acompanhada por chuva ligeira, que depressa desapareceu. Subimos à Fortaleza, onde é sempre agradável a vista sobre o Minho bem como para o outro lado da fronteira. Depois de algumas fotos prosseguimos, descendo da Fortaleza em direcção ao antigo posto fronteiriço.
Enquanto atravessava a velha ponte, não resisti a tirar algumas fotos. Estava entusiasmado, tantas foram as vezes que por ali andei, sempre com o mesmo pensamento: "um dia hei-de fazer o Caminho". 

A entrada em Tui, pelo Caminho Português, tinha que ser assinalada, precisamente junto ao primeiro marco que encontrámos em território galego, e aí tirámos a habitual foto de conjunto.

Prosseguimos pelo vale do rio Minho até encontrar a Ponte da Veiga, antes desta ponte medieval virámos à esquerda, seguindo num passeio agradável por frondosos  bosques.

Monumento ao peregrino, ao fundo a Ponte de Veiga

Continuámos a seguir as as setas e fizemos uma pausa na histórica Ponte das Febres ou de São Telmo, onde é visível uma placa com os seguintes dizeres Aquí enfermó de muerte São Telmo, en abril de 1246. Pídele que hable con Dios en favor tuyo. São Telmo, bispo patrono de Tuy e de Frómista, faleceu neste local quando se dirigia em peregrinação a Compostela.


Ponte das Febres ou de São Telmo

Seguimos pelos bosques até A Madalena, continuámos alcançando outra ponte medieval, a Puente de Orbenlle sobre o rio Louro. Atravessamos a ponte e iniciamos uma ligeira subida até chegar ao Polígono Industrial das Gándaras.

As sucessivas paragens que o Caminho impõe, traduzem-se numa velocidade média mais baixa, assim, nalgumas ocasiões temos que compensar o tempo gasto, para não desvirtuar o plano traçado.
Puente de Orbenlle
A travessia do Polígono Industrial do Porriño foi efectuada debaixo de um sol forte, e com a maior velocidade que as pernas permitiam, dado tratar-se de uma zona pouco agradável, muito exposta e movimentada, sem dúvida o ponto negro do Caminho Português, na Galiza, finalmente, depois de um esticão mais forte, para passar o quanto antes a zona industrial, chegámos a Porriño.
Porriño, centro histórico

Prosseguimos pela estrada que liga Porriño a Redondela, abandonando-a um pouco à frente, na direcção de Amieiro Longo.
Apesar de o dia ter começado cinzento e até com alguma chuva em Valença, a tarde estava com um sol forte. Assim, em Mos, parámos para beber uma bebida refrescante junto ao Palácio e à igreja barroca de Santa Eulalia.

Duas peregrinas a iniciar a subida da rua dos Cabaleiros

A acompanhar as bebidas, foram-nos gentilmente oferecidas umas porções de empanada Galega. Posso dizer que vieram mesmo a calhar, o corpo precisava de algum combustível para iniciar, desde Mos a subida de um dos lugares mais simbólicos do Caminho Português, a ingreme subida da Rúa dos Cabaleiros.

A subida da Rua dos Cabaleiros, Mos

Após a difícil subida até ao alto do Inxertado, aqui penso termos recebido a justa recompensa, pela dupla e agradável paisagem verde, dos bosques e dos terrenos sempre muito bem cultivados. 

A Galiza faz bem ao corpo e à alma, a agradável sensação de percorrer terras galegas é indescritível, mas seguramente absorvida por todos quantos trilham estes caminhos.  

Inicio da meseta de Chan de Pipas pela via Romana

O Caminho segue a Via Romana, assinalada pelo miliário de Vilar de Infesta, atravessando a meseta de Chan das Pipas.

Após a planura de Chan de Pipas, descemos pelo Caminho que envereda pela N550. e depressa chegámos a Redondela, numa altura em que começou a rarear o encontro com os demais peregrinos, a esta hora, muitos já se encontrariam instalados nos albergues. Mas não podíamos pensar ainda em encostar as bicicletas, para nós a jornada teria que terminar em Pontevedra.


Próximo de Redondela

Em Redondela efectuámos uma paragem junto ao albergue, situado num edifício histórico do século XVI, conhecido como Casa da Torre, que se destaca pela sua arquitectura e pelo seu uso prático e cultural. 

Albergue da Casa da Torre, Redondela

Ao sair de Redondela comecei a acusar alguma fadiga, um pouco motivada pelo ritmo inconstante e a necessidade de uma refeição, ainda que ligeira, do que pelo acumular de quilómetros  realizados. 

Passada a ponte do caminho de ferro, segundo informações concelhias, da autoria de Eiffel, o Caminho sobe, rodeado por uma zona arborizada, atingido o cume, iniciámos a descida,  interrompida para observar e fotografar a Ría de Vigo e a ilha de San Simón.
Ria de Vigo e a ilha de San Simón




























Encontrámos de novo a N550, que percorremos, entrando em Arcade, capital das ostras na Galiza. Bem que nos apetecia forrar aqui o estômago, mas era importante chegar, ainda dia, a Pontevedra, assim decidimos que o melhor era mesmo tratar do assunto em Pontevedra, já com banho tomado.
Ponte medieval em Pontesampaio

Seguia o Aguiar na frente, secundado pelo Joaquim e ainda pensava na paella que ficou para trás, quando vejo um automóvel sair de uma curva que antecede a histórica Ponte Sampaio, a toda a velocidade e quase desgovernado. Não sei se foi Santiago, mas por pouco o enorme susto não tinha virado em tragédia.
Pontesampaio

Passada a histórica ponte sobre as águas do rio Verdugo, entrámos em Pontesampaio. Seguimos um dos troços mais bonitos do Caminho Português, na Galiza, a Vrea Vella da Canicoubar, subimos o antigo caminho empedrado até à encruzilhada para Nuestra Señora de Amil, frequentado desde as épocas mais remotas e onde são visíveis marcas das rodas dos carros, sulcadas nas velhas lousas.
Vrea Vella da Canicoubar

Continuámos em direcção a Pontevedra, descendo o Caminho, rodeados por pinheiros, até aos 
vales de Alcouce e Boullosa. A paisagem modifica-se à medida que progredimos, chegando finalmente ao albergue de Pontevedra.
Velha calçada romana
Seguiram-se os afazeres normais até ficarmos instalados, e, após o duche, arriscámos sair do albergue para jantar no centro da cidade.
A descer para Pontevedra
A partir daqui aconteceu um pouco de tudo, o jantar que coube melhor em sorte ao Joaquim e ao Aguiar, com um aperitivo de deliciosos mexilhões, chuva no regresso, albergue fechado, a termos que passar as bicicletas por cima do gradeamento, e, quando pensámos que o pior tinha passado, as portas do albergue estavam fechadas.

Foi uma sorte umas portuguesas de Braga terem ouvido a minha chamada,  sorte porque uma delas reconheceu a minha voz, de termos estado a tagarelar antes da saída para o jantar.

Mas não foi tudo, de tanta pressa que estava, tinha esquecido carteira com dinheiro, máquina fotográfica , tudo, no pátio do albergue. Não fora uma malta de Braga que também estava a fazer o caminho de bici e estava feito. 


Um bom jantar na Galiza , dá sempre para ficar alegre
Percorremos na jornada 76 km, chegámos a Pontevedra por volta das 20:00, um pouco exaustos e a necessitar de um bom duche, como de água para beber.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Caminho Inglês

Caminho Inglês 2009

Um pouco da história


Ferrol - Início do Caminho
O Caminho Inglês foi uma rota de peregrinação jacobeia  muito utilizada na Idade Média, em alternativa à rota mais seguida pelos peregrinos, o Caminho Francês.

Aos portos de Ferrol e Corunha, assim como a Ribadeo e Viveiro, afluíam peregrinos de barco provenientes das ilhas britânicas, das penínsulas escandinavas, alemães e flamengos.

No século XII, mais precisamente no ano de 1147, a esquadra da Segunda Cruzada, com destino à Terra Santa, de má memória para os cristãos, efectuou, a pé, o caminho entre os portos Ferrol e da Corunha e Santiago de Compostela, com o fim de visitar o túmulo do apóstolo, antes de participar naquela que foi a única vitória cristã, precisamente a reconquista de Lisboa, em 1147, sob a solicitação de Dom Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal. 

Torre dos Andrades - Pontedeume
Do primeiro itinerário marítimo conhecido,  sabe-se que foi escrito entre 1154 e 1159, por um monge islandês, que relata a sua viagem desde a Islândia até Bergen na Noruega, passando pelo canal de Kiel, na fronteira entre a Dinamarca e Alemanha.  O monge seguiu a pé até Roma, a caminho da Terra Santa, outros, escandinavos e islandeses, fizeram a rota a pé, por Roncesvalles, enquanto outros aportaram ao norte da Península Ibérica, fazendo depois a rota a pé, pelo Caminho Inglês até Santiago.

Nos séculos XIV e XV a Guerra dos Cem Anos, entre ingleses e franceses, fez crescer os utilizadores deste itinerário, com muitos peregrinos a chegarem de barco aos locais atrás referidos, e provenientes de Londres, Bristol, Southampton e Plymouth, aproveitando também para efectuar trocas comerciais com mercadores galegos.

O Caminho Inglês conheceu passou a ser pouco menos utilizado a partir da ruptura assumida por Henrique VII (1509-1549) com a Igreja Católica.


O meu Caminho Inglês em 2009


Gare de Compostela
Em 04 de Setembro de 2009 iniciámos a viagem de automóvel de Coimbra até Santiago de Compostela.

O planeado era viajar de  comboio até à Corunha e daqui fazer a ligação a Ferrol em bicicleta, para percorrer o Caminho Inglês até Compostela em dois dias.

Assim, nesse mesmo dia 4 de Setembro fomos dormir no albergue de Neda, para iniciar no dia seguinte a nossa empresa. O albergue ficou por nossa conta, apenas um peregrino alemão nos fez companhia.

Ligação Corunha-Ferrol
Em 2008, quando em companhia do Joaquim Tavares e do José Botelho fizemos o Santiago-Finisterra - Muxia,  já tinha ficado no ar a intenção de fazermos um  Caminho em 2009,  mais tarde decidimos que seria o Caminho Inglês, a partir de Ferrol. Também o poderíamos ter percorrido a partir da Corunha ou mesmo Ribadeo, a dúvida subsistiu quase até ao fim.

Em Ferrol, para além se tomar o pequeno almoço, aproveitámos para visitar e fotografar a cidade natal do Caudilho, o General Franco, figura controversa e incontornável que marcou sem dúvida um longo período da história de Espanha e peninsular.


Ferrol - Praça do Caudilho

Para além de uma volta pelo centro histórico, aproveitámos para espreitar o arsenal da marinha espanhola. No Porto Antigo, iniciámos o Caminho, precisamente junto ao marco que o assinala. Prosseguimos paralelos à baia de Ferrol até chegar a Neda, onde dormíramos na véspera e onde nos cruzámos com a sinalização do caminho que leva ao santuário de Santo André de Teixido.

Ponte pedonal - Neda
Também conhecido como Santo André de Lonche ou Santo André do Cabo do Mundo e que se situa  a cerca de 12 km de Cedeira, no meio da serra da Capelada, em redor da costa de Ortegal,escondido entre penhascos e bosques, numa zona de escarpada orografia, o lugar está protegido de temporais, com características de promontórios celtas, que procuravam espaços mágicos que penetrassem no mar.

Assim, de Neda seguimos para Fene, passando perto dos estaleiros e a partir desta localidade subimos um monte até encontrarmos a estrada paralela ao Caminho que nos levou a Cabanas, 

Playa da Magdalena - Cabanas
Antes, porém, o Botelho e o Joaquim, enquanto bebiam a sua cervejinha resolveram  tirar todas as medidas da praia de Cabanas!!  No meu caso preferi adoptar uma atitude mais deinteressada, face à paisagem das montanhas!!!


Em Pontedeume  apreciei o seu excelente enquadramento paisagístico, onde a ponte, a baia e a Torre dos Andrades são, sem dúvida, os seus ex-libris.
Pontedeume
Depois de Bañobre, cruzámos a ponte medieval sobre o río Baxoi, coincidindo com o Caminho Real, andámos cerca 300m. por um caminho de terra até chegar a Miño , onde gozámos um banho na ria e nos deliciámos com a cozinha galega, num restaurante integrado na zona verde contígua à praia.

 Ponte medieval sobre o río Baxoi,
Particularmente saboreei uns magníficos Chipirones, enquanto o Quim e o Zé se entretiveram com um bem confeccionado prato de carne de cerdo  e batatinhas fritas.

Após o banho na praia e a farta refeição, quem iria vencer a subida de forte inclinação, apenas pela sombra de proveniente de frondosos bosques de carvalhos e castanheiros, para chegar a Betanzos?!

Praça central de Betanzos, antiga capital da Galiza

Mas, lá tivemos que prosseguir para  a bonita cidade Betanzos, antiga capital da Galiza, onde decidimos pernoitar. Trata-se de uma cidade tipicamente galega, banhada pela ria que lhe dá o nome e a graça.

O Caminho Inglês caracteriza-se sobretudo pelo verde dos bosques, com uma primeira parte a decorrer paralela à ria de Ferrol e depois de Betanzos. As duas subidas de relevo mais acentuado, embora difíceis, também não nada que não se possa fazer.

Peregrinos a cavalo no Caminho Inglês
É um Caminho tranquilo onde se convive muito bem com a natureza e a pacatez do quotidiano rural galego. A sombra dos bosques na maior parte do seu trajecto ajuda a torná-lo bastante agradável de percorrer.

Os Três Santiagos Matamouros 
A chegada a Santiago é sempre mítica, com o aproximar da Praça do Obradoiro sente-se mais presente o espírito do Caminho . Quase em sobreposição à alegria de mais uma etapa cumprida, é indisfarçável uma certa nostalgia, ficando a ideia, quase o compromisso, de repetir no ano seguinte.