segunda-feira, 3 de março de 2014

Bicicletas nos comboios, resposta à CP


As linhas do Douro e Minho têm um potencial a desenvolver que a CP se "recusa" a encarar com visão estratégica responsável.

Relativamente à circulação de passageiros, acompanhados de bicicletas, nas já citadas linhas do Minho e Douro, a CP tem a dizer o seguinte:

-“Devido às características do material circulante que efetua o serviço Regional/ Inter-regional nas linhas do Minho e Douro, e não existindo de modo algum condições para o transporte de bicicletas, não é autorizado o seu transporte sendo que o mesmo só se destina ao transporte de passageiros.”

Na sequência da reclamação por mim efectuada e que já dei conta neste espaço, passo a contra argumentar:

-As linhas do Minho e do Douro podem transportar-nos a destinos de enorme interesse para a prática do cicloturismo que, felizmente, começam a ser muitos no Norte do País.
O investimento, com dinheiros públicos, que tem sido efectuado, e bem, na criação de ciclovias, nomeadamente através do aproveitamento das antigas linhas de caminho de ferro merecia da parte da CP outra atenção e operacionalidade, tendo em vista o usufruto que a oferta turística proporciona.
As antigas linhas do Corgo, Tâmega e  a ciclovia entre Viana do Minho e Ponte de Lima, são alguns locais a que se podia aceder utilizando as composições da CP e que no presente não é possível.
O regresso desde Vigo para quem peregrina a Compostela de bicicleta é igualmente inexequível.
Não seria adequado a CP criar oferta estratégica diversificada no âmbito da promoção turística nacional, divulgando locais de interesse e produtos turísticos regionais com interesse nacional e internacional? Com certeza que sim, porventura em colaboração com as Regiões de Turismo e a pensar num determinado público-alvo, através de acções promocionais.

A utilização do comboio como transporte ideal para aceder a locais de inegável interesse turístico, será, por certo, boa política.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

DeBicicletaNaCidade

Estrada de Penacova no limite do Concelho
Os dias são de chuva, este inverno tem-nos fustigado com temporais, impedindo a saída para passeios, a pé ou de bicicleta, como seria desejável.

A impossibilidade de pedalar nestes dias cinzentos é substituída pela memória que nos recorda os incríveis passeios de bicicleta que o bom tempo proporciona.

No topo dessas recordações, ainda tão frescas, destacam-se as peregrinações  a Santiago de Compostela de bicicleta. Resta-nos desejar o aproximar de dias mais longos  para voltar ao pedal, por enquanto apenas dá para projectar o  próximo Caminho de Santiago, lá para o Verão.

Na esteira das recordações e a propósito do título que escolhi para o presente artigo, passo a contar uma história de infância. Assim, por inícios da década de setenta, o tráfego na Estrada de Penacova, N 110, era constituído maioritariamente por bicicletas, motorizadas e uma meia dúzia de veículos automóveis a somar aos autocarros de transporte rodoviário de passageiros, na altura vulgarmente designadas camionetas da carreira.

O período entre as cinco e as sete da tarde marcava o regresso a casa dos trabalhadores que em Coimbra ganhavam o sustento para as suas famílias, muitos deles montados nas velhas “pasteleiras” com destino às povoações de Torres do Mondego, Casal da Misarela, Caneiro, Rebordosa, entre outras, situadas na margem direita do Mondego, "Pasteleiras" que no Inverno andavam quase sempre artilhadas com enormes guarda- chuva, que também serviam para espantar os cães mais afoitos às pernas.

Torres do Mondego na década de 70
Uma das distracções da catraiada, onde me incluía, consistia em rondar a taberna da D. Julieta, local de culto para muita gente, onde era possível encontrar bicicletas estacionadas. O fito era poder tomar alguma bicicleta emprestada de qual sujeito mais distraído, normalmente empenhado a regar a garganta.

Muitas vezes a aventura corria mal e a ideia de dar à perna, balançando o rabo sobre uma "burra" tomada de assalto, era premiada com valente "paulada" de guarda-chuva direitinha às costas.

“O Pequenito”, era assim que o pequeno grupo de "assaltantes de bicicletas" atrás mencionado apelidava um rapaz, de baixa estatura, que todos os dias percorria de bicicleta o caminho entre Coimbra e Penacova, o rapaz, à época, teria apenas catorze anos ou dezasseis anos, não mais, contudo a reduzida estatura apenas permitia que pedalasse uma pequena bicicleta de roda 24.

Para a malta, ávida de dar umas voltitas, nem que fosse só em cima de um pedal ou com as pernas pelo meio do quadro, ver passar alguém mais novo, de estatura semelhante, montado na sua pequena bicicleta, era de uma inveja tortuosa. Vai daí, enchíamos a paciência do pobre, repetindo em coro, pequenito, pequenito, pequenito…, numa implicação cada vez mais radical e demonstrativa de crueldade infantil.

As cenas repetiam-se a cada dia que passava, num crescente aumento de animosidade, que numa ou outra ocasião levou mesmo a vias de facto.

Era a terrível inveja de não ter uma bicicleta, mas tudo acabou em festa no dia em que o "Pequenito" emprestou generosamente a bicicleta. Num repente todos virámos grandes amigos ... mas nunca deixou de ser "O Pequenito".

À época os jovens felizardos que desfrutavam de bicicleta ou pertenciam a família abastada, ou ao grupo dos que desde os 13 ou 14 anos já aprendiam algum ofício, abandonando precocemente os estudos para ajudar na economia familiar.

Como sabemos o mundo mudou, a galopante evolução das últimas quatro décadas foi transformando progressivamente o tráfego nas estradas implicando a construção de novas vias e outras edificações com a inerente transformação geográfica. No entanto, são manifestamente raras as novas vias que salvaguardam a circulação de ciclistas com margem de segurança, sobretudo nas cidades, onde sempre deveria ter existido a preocupação de conferir maior amplitude a passeios e outras zonas pedonais, o planeamento apenas foi feito em função da circulação automóvel.

Vista de Penacova, o rio e a estrada encoberta pela vegetação
A estrada de Penacova, que serpenteia o rio Mondego na sua margem direita, entre esta vila e a cidade de Coimbra, atravessando um cenário de rara beleza, viu crescer de forma galopante o tráfego motorizado para níveis incomportáveis, atendendo ao seu perfil sinuoso e estreito. Curiosamente manteve o seu perfil, embora melhorado recentemente fruto da sua classificação como estrada verde, o que se saúda.

Inserida numa paisagem deslumbrante, que se  estende sobre o rio Mondego e encostas sobranceiras, esta via é hoje muito aproveitada por ciclistas que ao fim de semana ou em passeios de fim de tarde optam por recrear-se a pedalar.

Numa manhã do mês de Junho de 2007, resolvi substituir o automóvel pela bicicleta na minha deslocação para o trabalho. Assim, pedalei durante 8 km, distância que separa a localidade de Torres do Mondego, em Coimbra, da zona da Guarda Inglesa, na mesma cidade, sem grande dificuldade e com muito gozo.

De bicicleta para o trabalho
Inicialmente o que pensei tratar-se de um passeio fortuito, tornou-se num hábito, assim, de tal forma fiquei contagiado que nesse mesmo Verão depressa passei a adoptar a bicicleta como principal meio de transporte.

Em 2008 e 2009 repeti a experiência, nos meses da Primavera e Verão, utilizando a bicicleta nas deslocações para o trabalho. Por razões diversas abandonei esta prática a partir de 2010 e recomecei timidamente em 2012, para em 2013 entrar novamente numa prática salutar  que dá grande gosto.

No seguimento desta experiência comecei a interessar-me, com maior afinco, pela temática que se prende com a utilização de meios suaves de transporte e a pretender contagiar outras pessoas, sempre na procura de mais adeptos.

Numa grande cidade de bicicleta, é possível.
O uso massivo da bicicleta, progressivamente abandonado em detrimento de veículos automóveis, está a ser combatido em diversas cidades europeias, há já bastante tempo. Paris, Londres Barcelona, Bayonne, San Sebastian, Vitória, Salamanca, Burgos, já para não falar das cidades dos Países Baixos onde o uso da bicicleta é generalizado, são exemplos que é possível acompanhar. E se a palavra plágio faz sentido, então aplica-se por inteiro aos projectos implementados nestas cidades.

É meu desejo, como seguramente de muitas pessoas em Portugal, ver nascer bons projectos, no âmbito da mobilidade sustentável, destinados às nossas vilas e cidades. É neste sentido que, embora não sendo um especialista, em próxima edição procurarei ir de encontro a casos de sucesso, evidenciando os seus benefícios, para que possam ser seguidos por demais urbes. O fim a prosseguir aponta no sentido de se obter melhores condições de circulação para ciclistas e peões, no fundo contribuir para a melhoria da qualidade de vida

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

De Alvaiázere a Coimbra, pelo Caminho Português de Santiago


Casa em ruinas 
Sábado, 26 de Outubro de 2013, resolvi tirar as duas rodas à bicicleta e acondicioná-la no 500. Objectivo, ir até Alvaiázere e percorrer, por Terras de Sicó, o traçado do Caminho Português de Santiago, Fátima no sentido inverso,  aproveitando ao máximo o magnífico dia de sol, último de 2013 com hora de Verão.

Amarelo para Santiago e azul Fátima
Tenho apenas que lamentar o facto de só ter começado a pedalar pelas 12:45, hora em que saí de Alvaiázere, depois de me alimentar apenas com uma sanduíche e um sumo de fruta, manifestamente insuficiente face aos quilómetros que teria que efectuar.

Para começar, fui obrigado a subir até próximo de Ansião, a paisagem melhorou à medida em que me fui aproximando desta vila, onde cheguei percorrendo apenas 14 km. 

Ponte da Cal - Ansião
Ansião, vila com história, tem como patrona a Rainha Santa Isabel, na breve passagem assinalo a velha Ponte da Cal, de inquestionável interesse.

Depois de em Ansião ter almoçado uma excelente sande de lombo com alface e uma cerveja sem álcool, por apenas € 3,00, voltei ao Caminho, deslumbrante na sua paisagem, entre muros de pedra, oliveiras e carvalhos, aqui e ali com a presença de rebanhos de ovelhas, vigiadas pelos seus pastores.


Próximo de Cernache, o Sr. Abel e esposa
Antes de chegar às proximidades do Rabaçal, foi incontornável ter que passar um caminho repleto de água, onde, por sorte madrasta, molhei os pés contra minha vontade.

Segui depois até à Fonte Coberta, passei ao lado do Rio de Mouros, já com água, até chegar a Conímbriga, Cernache e finalmente Coimbra.  68 km. foi o total da distância percorrida, principalmente por Terras de Sicó, num passeio surpreendente pela sua beleza natural.

domingo, 29 de setembro de 2013

Caminho Português - O Regresso

Vigo, 04 de Agosto de 2013.

Praia do Samil - Vigo
Magnífica jornada, a impossibilidade de transportar as bicicletas no comboio, a partir de Vigo, determinou que optássemos por dormir nesta cidade, onde chegámos por volta das 22:00 horas. O adiantado da hora remeteu-nos para uma pensão bem modesta onde desembolsámos a módica quantia de €15 pela  dormida! A hora tardia não impediu uma breve incursão pela noite de Vigo. Enquanto o Aguiar se  ficou pela pensão, servi de cicerone ao Joaquim Tavares, menos familiarizado com a cidade.

Pela manhã, bem cedo, iniciámos o percurso pela costa, que nos iria levar a Caminha. O Aguiar ora seguia na dianteira ora se atrasava, numa cadência ditada pela câmara fotográfica e pela roda de trás que estava sempre a exigir ar.

Baiona
Reagrupámos em Baiona para o pequeno almoço, onde a distracção da empregada da cafetaria ignorou o pedido do Aguiar que em legítimo acto de protesto resolveu arrancar. Apenas nos viríamos a encontrar em A Guarda.

O excelente dia de Agosto permitiu que usufruíssemos de um magnífico passeio, ao longo da costa, sempre em zonas cicláveis, e, a partir de Baiona, por ciclovia.

A incursão por Baiona foi premiada por uma pequena actuação de um grupo etnográfico local, de que aqui deixo um excerto da actuação.

Fortificação - Baiona
Continuando pela costa, ainda pensámos em dar um mergulho, mas a incerteza de encontrar transporte para o regresso fez-nos mudar de opinião.

Melhor que quaisquer palavras as imagens ilustram a jornada, que nos agradou bastante, quer pelo ar que respirámos, quer pela beleza da paisagem.

Em A Guarda reagrupámo-nos de novo e aproveitámos para a tradicional tapa e a correspondente cerveja. Esperámos cerca de uma hora pelo ferry que nos atravessou para Caminha.

De imediato nos dirigimos para o apeadeiro da CP, mas em vão, porque por duas vezes nos foi recusado o transporte das bicicletas no comboio.

Uma vergonha, em lugar de incentivarem os utentes a utilizar o comboio mais parece que pretendem o contrário. A CP, que proíbe o transporte de bicicletas nas linhas do Douro e Minho, quando, pela natureza das regiões, teriam que incrementar e incentivar o uso do comboio. Verdadeira estupidez e "tacanhesa" portuguesa, enfim, somos ricos...

A viagem para Coimbra foi de autocarro, para o efeito fomos obrigados a desmanchar e embalar as biclas. As pobres coitadas no fim de tanto tombo que levaram nos Caminhos, nem lhes foi permitido descansar convenientemente, as burrinhas, tão bem que se portaram, excepto a do Aguiar que é mais teimosa e obrigou o dono a periodicamente dar à bomba a partir do quinto dia, mereciam um tratamento mais cuidado, próprio de majestosas éguas.


  Clique para ver


Pontevedra a Santiago de Compostela, 75 km.

03 de Agosto de 2012, 5.º dia.


Albergue de Pontevedra
Primeiro Sábado de Agosto,  acordámos para a derradeira jornada do Caminho, após cumpridas as exigências indispensáveis deixámos o albergue de Pontevedra, procurando local para tomar o pequeno-almoço. 

Bem no centro da cidade, próximo da ria, encontrámos finalmente uma cafetaria onde os clientes eram maioritariamente peregrinos. Ao balcão, um "borracho" bebia uma cerveja, ao mesmo tempo que tirava do sério o proprietário do estabelecimento.


Pontevedra despertava timidamente, apenas nas proximidades do mercado municipal era visível alguma agitação matinal. Alguns "borrachos" ainda deambulavam pelas ruas. Mas o destaque ia, sem dúvida, para a quantidade de peregrinos, de todas as idades e nacionalidades, que faziam o Caminho Português.

Pontevedra - Início da 5.ª Jornada

Os primeiros quilómetros, após Pontevedra, sempre na companhia de muitos peregrinos, no Caminho ninguém está só, mesmo os que, por qualquer motivo, pretendam percorrê-lo nessa condição.


Junto à igreja de Santa María de Alba
Continuámos na companhia de muitos peregrinos, junto à igreja de Santa Maria de Alba estive à conversa com peregrinos provenientes de Cádis, ainda perguntei se conheciam Camilo, um amigo que fez comigo o Caminho Francês em 2007, embora as probabilidades fossem muito poucas.

Por  Caldas de ReisValga 

A beleza do percurso estampa-se nas imagens que apresento, mas é difícil descrever o sentimento que interiorizamos.
A aproximação a Santiago é um estado antagónico, por um lado queremos chegar depressa, por outro apetece continuar no Caminho.


A imagem que se repete todos os anos na Praça do Obradoiro, por muito idêntica que possa parecer, encontra sempre particularidades diferentes, o sentimento é sempre novo.

Praça do Obradoiro 


Finalmente a chegada a Santiago de Compostela, pelas 16:16, estava feito o meu Caminho Português,  a via mais percorrida, entre Coimbra a Santiago estava por fim concluída. Agora, sempre que passe em Tui não preciso de me lamentar de ainda não ter feito o Caminho Português, como acontecia anteriormente.
Após a conclusão do Caminho Português de Santiago, em 2012 pelo interior, e agora o Caminho Central, a vontade e a determinação de continuar a pedalar em direcção a Compostela mantém-se, quiçá ainda mais acesa. O sonho de repetir o Caminho Francês está latente, assim existam condições para o tornar uma realidade. Porém, enquanto tal não acontece, há que pensar em fazer outros Caminhos mais acessíveis...

Fotos do 5.º dia


sábado, 28 de setembro de 2013

Crónica do 4.º dia do Caminho Português, entre Rubiães e Pontevedra

Rubiães, 02 de Agosto de 2013.

 A noite foi atribulada, um peregrino de nacionalidade alemã passou mal, pelo que foi necessário chamar por socorro médico. Na altura não percebemos bem o que se estava a passar, pensei, inclusive, que seriam os primeiros peregrinos a sair do albergue. O Aguiar continuou sempre ferrado que nem uma pedra, não deu por nada. Finalmente uma noite sem que se tivesse dado  por ele. 

Este dia iria ser diferente dos anteriores, saímos do albergue, pelas 07:56,  à medida que se progredia no Caminho, encontrávamos cada vez mais peregrinos. O pequeno almoço foi tomado em Rubiães, onde contámos com a simpatia  e boa disposição do proprietário.

Primeiras horas do Caminho, após saída do albergue de Rubiães

Na véspera, apesar de termos chegado tarde ainda convivemos um pouco com alguns peregrinos espanhóis, fiquei também a saber pela Olívia, de Viana do Castelo, que as melhores Bolas de Berlim são as do Manel e não do Zé, estou a referir-me ao Natário, que tem as melhores Bolas de Berlim do Mundo. 

Após o pequeno almoço aproveitei para trocar contactos com o Vítor Matos, de Coimbra, que fazia a peregrinação na companhia de um espanhol de Saragoça e de uma rapariga de Valência.

A jornada que marcou a entrada do Caminho Português por terras da Galiza,  foi caracterizada pelas frequentes paragens, ora para trocar dois dedos de prosa com os peregrinos, ora para as indispensáveis fotos, ou para reabastecimento.

Continuámos a passar pelos peregrinos que viajavam quer em grupos quer individualmente e a transmitir a saudação habitual: Bom Caminho. 

Antiga ponte do rio Minho
Em São Bento da Porta Aberta, continuámos por terreno montanhoso, em direcção a Gontomil, altura em que houve lugar para uma foto de conjunto com cerca de  40 a 50 peregrinos americanos. Após este animado encontro, seguiu-se a Olívia de Viana do Minho e as suas divertidas colegas valencianas. 
A entrada em Valença foi acompanhada por chuva ligeira, que depressa desapareceu. Subimos à Fortaleza, onde é sempre agradável a vista sobre o Minho bem como para o outro lado da fronteira. Depois de algumas fotos prosseguimos, descendo da Fortaleza em direcção ao antigo posto fronteiriço.
Enquanto atravessava a velha ponte, não resisti a tirar algumas fotos. Estava entusiasmado, tantas foram as vezes que por ali andei, sempre com o mesmo pensamento: "um dia hei-de fazer o Caminho". 

A entrada em Tui, pelo Caminho Português, tinha que ser assinalada, precisamente junto ao primeiro marco que encontrámos em território galego, e aí tirámos a habitual foto de conjunto.

Prosseguimos pelo vale do rio Minho até encontrar a Ponte da Veiga, antes desta ponte medieval virámos à esquerda, seguindo num passeio agradável por frondosos  bosques.

Monumento ao peregrino, ao fundo a Ponte de Veiga

Continuámos a seguir as as setas e fizemos uma pausa na histórica Ponte das Febres ou de São Telmo, onde é visível uma placa com os seguintes dizeres Aquí enfermó de muerte São Telmo, en abril de 1246. Pídele que hable con Dios en favor tuyo. São Telmo, bispo patrono de Tuy e de Frómista, faleceu neste local quando se dirigia em peregrinação a Compostela.


Ponte das Febres ou de São Telmo

Seguimos pelos bosques até A Madalena, continuámos alcançando outra ponte medieval, a Puente de Orbenlle sobre o rio Louro. Atravessamos a ponte e iniciamos uma ligeira subida até chegar ao Polígono Industrial das Gándaras.

As sucessivas paragens que o Caminho impõe, traduzem-se numa velocidade média mais baixa, assim, nalgumas ocasiões temos que compensar o tempo gasto, para não desvirtuar o plano traçado.
Puente de Orbenlle
A travessia do Polígono Industrial do Porriño foi efectuada debaixo de um sol forte, e com a maior velocidade que as pernas permitiam, dado tratar-se de uma zona pouco agradável, muito exposta e movimentada, sem dúvida o ponto negro do Caminho Português, na Galiza, finalmente, depois de um esticão mais forte, para passar o quanto antes a zona industrial, chegámos a Porriño.
Porriño, centro histórico

Prosseguimos pela estrada que liga Porriño a Redondela, abandonando-a um pouco à frente, na direcção de Amieiro Longo.
Apesar de o dia ter começado cinzento e até com alguma chuva em Valença, a tarde estava com um sol forte. Assim, em Mos, parámos para beber uma bebida refrescante junto ao Palácio e à igreja barroca de Santa Eulalia.

Duas peregrinas a iniciar a subida da rua dos Cabaleiros

A acompanhar as bebidas, foram-nos gentilmente oferecidas umas porções de empanada Galega. Posso dizer que vieram mesmo a calhar, o corpo precisava de algum combustível para iniciar, desde Mos a subida de um dos lugares mais simbólicos do Caminho Português, a ingreme subida da Rúa dos Cabaleiros.

A subida da Rua dos Cabaleiros, Mos

Após a difícil subida até ao alto do Inxertado, aqui penso termos recebido a justa recompensa, pela dupla e agradável paisagem verde, dos bosques e dos terrenos sempre muito bem cultivados. 

A Galiza faz bem ao corpo e à alma, a agradável sensação de percorrer terras galegas é indescritível, mas seguramente absorvida por todos quantos trilham estes caminhos.  

Inicio da meseta de Chan de Pipas pela via Romana

O Caminho segue a Via Romana, assinalada pelo miliário de Vilar de Infesta, atravessando a meseta de Chan das Pipas.

Após a planura de Chan de Pipas, descemos pelo Caminho que envereda pela N550. e depressa chegámos a Redondela, numa altura em que começou a rarear o encontro com os demais peregrinos, a esta hora, muitos já se encontrariam instalados nos albergues. Mas não podíamos pensar ainda em encostar as bicicletas, para nós a jornada teria que terminar em Pontevedra.


Próximo de Redondela

Em Redondela efectuámos uma paragem junto ao albergue, situado num edifício histórico do século XVI, conhecido como Casa da Torre, que se destaca pela sua arquitectura e pelo seu uso prático e cultural. 

Albergue da Casa da Torre, Redondela

Ao sair de Redondela comecei a acusar alguma fadiga, um pouco motivada pelo ritmo inconstante e a necessidade de uma refeição, ainda que ligeira, do que pelo acumular de quilómetros  realizados. 

Passada a ponte do caminho de ferro, segundo informações concelhias, da autoria de Eiffel, o Caminho sobe, rodeado por uma zona arborizada, atingido o cume, iniciámos a descida,  interrompida para observar e fotografar a Ría de Vigo e a ilha de San Simón.
Ria de Vigo e a ilha de San Simón




























Encontrámos de novo a N550, que percorremos, entrando em Arcade, capital das ostras na Galiza. Bem que nos apetecia forrar aqui o estômago, mas era importante chegar, ainda dia, a Pontevedra, assim decidimos que o melhor era mesmo tratar do assunto em Pontevedra, já com banho tomado.
Ponte medieval em Pontesampaio

Seguia o Aguiar na frente, secundado pelo Joaquim e ainda pensava na paella que ficou para trás, quando vejo um automóvel sair de uma curva que antecede a histórica Ponte Sampaio, a toda a velocidade e quase desgovernado. Não sei se foi Santiago, mas por pouco o enorme susto não tinha virado em tragédia.
Pontesampaio

Passada a histórica ponte sobre as águas do rio Verdugo, entrámos em Pontesampaio. Seguimos um dos troços mais bonitos do Caminho Português, na Galiza, a Vrea Vella da Canicoubar, subimos o antigo caminho empedrado até à encruzilhada para Nuestra Señora de Amil, frequentado desde as épocas mais remotas e onde são visíveis marcas das rodas dos carros, sulcadas nas velhas lousas.
Vrea Vella da Canicoubar

Continuámos em direcção a Pontevedra, descendo o Caminho, rodeados por pinheiros, até aos 
vales de Alcouce e Boullosa. A paisagem modifica-se à medida que progredimos, chegando finalmente ao albergue de Pontevedra.
Velha calçada romana
Seguiram-se os afazeres normais até ficarmos instalados, e, após o duche, arriscámos sair do albergue para jantar no centro da cidade.
A descer para Pontevedra
A partir daqui aconteceu um pouco de tudo, o jantar que coube melhor em sorte ao Joaquim e ao Aguiar, com um aperitivo de deliciosos mexilhões, chuva no regresso, albergue fechado, a termos que passar as bicicletas por cima do gradeamento, e, quando pensámos que o pior tinha passado, as portas do albergue estavam fechadas.

Foi uma sorte umas portuguesas de Braga terem ouvido a minha chamada,  sorte porque uma delas reconheceu a minha voz, de termos estado a tagarelar antes da saída para o jantar.

Mas não foi tudo, de tanta pressa que estava, tinha esquecido carteira com dinheiro, máquina fotográfica , tudo, no pátio do albergue. Não fora uma malta de Braga que também estava a fazer o caminho de bici e estava feito. 


Um bom jantar na Galiza , dá sempre para ficar alegre
Percorremos na jornada 76 km, chegámos a Pontevedra por volta das 20:00, um pouco exaustos e a necessitar de um bom duche, como de água para beber.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Crónica do 3.º dia do Caminho Português, entre São Pedro de Rates e Rubiães

Igreja Românica de São Pedro de Rates

Primeiro dia de Agosto e terceiro do nosso Caminho, fomos dos últimos peregrinos a acordar e a sair do albergue de Rates.

O plano traçado para a jornada impunha que fossemos dormir a Rubiães, o que equivale a dizer que forçosamente teríamos que passar a mítica e difícil Serra da Labruja. 

Os primeiros raios de sol começaram timidamente a querer surgir de um céu acinzentado. Após a preparação das bicicletas, dirigimo-nos ao único café aberto nas cercanias, muito próximo da velha e magnífica igreja românica.

Pequeno almoço em Rates
Pelas 08:30, após o o pequeno almoço, recreámo-nos a tirar fotografias à igreja românica de São Pedro de Rates, uma das jóias da arquitectura religiosa medieval portuguesa.

Os primeiros quilómetros foram de reencontro com os peregrinos que na véspera conhecêramos no albergue de Rates e muitos outros que pelo Caminho fomos encontrando.

Uma pequena história ressalta ainda do dia anterior, trata-se da jovem hospedeira que simpaticamente nos acolheu no albergue. Assim, contou-nos que ao fim de algum tempo a acolher e assistir peregrinos, ela mesmo iria iniciar o seu Caminho, a partir de Rates. A ansiedade quase não a deixou dormir e foi das primeiras a partir. Após alguns anos de trabalho voluntário, finalmente resolveu fazer o seu próprio Caminho, partilhar as suas vivências.

O lendário Galo de Barcelos
A aproximação de Barcelinhos e logo a seguir Barcelos, originou nova paragem. O Joaquim Tavares e o José Botelho demoraram um pouco com a fotografia. Depois de passar a ponte a pose ao lado do famoso Galo de Barcelos e a oportunidade para comer uma saborosa bola de Berlim e beber um café com leite.

O Minho em Agosto fervilha de gente, as ruas de Barcelos estavam plenas de turistas, emigrantes e peregrinos.

Dos inúmeros motivos de interesse da cidade de Barcelos, destaco o templo do Bom Jesus da Cruz, que assinala o aparecimento miraculoso de uma cruz de terra negra no chão barrento da feira, em 20 de Dezembro de 1504, templo que abriu ao culto em 1710. Trata-se de uma edificação de cúpula e planta centrada, com o espaço interior disposto grega, da autoria do Arquitecto João Antunes.
Barcelos e ao fundo a igreja do Bom Jesus da Cruz

Um pouco absorto com o templo do Bom Jesus da Cruz, que não canso de admirar, novo desencontro aconteceu, desta vez fiquei para trás. Pensando estar na frente fui rolando devagar, sem pressa, esperando o reagrupamento.

Peregrinos a Santiago

Como a demora era muita obtive a informação de um peregrino que regressava de Santiago, a caminho de Fátima, que me informou da diferença de uns bons 15 a 20 minutos para os meus amigos.

Foi hora para dar corda aos sapatos e imprimir um ritmo mais forte, o tipo de percurso também ajudava. Finalmente o reencontro, no rio Neiva, junto à Ponte das Tábuas, momento aproveitado para uns mergulhos na água límpida e cristalina do rio.

Aqui não poupámos tempo, bem pelo contrário, apetecia ficar para o resto do dia, não fosse o objectivo programado. Sem dúvida um bom momento.

Regabofe na Ponte das Tábuas

Serpenteando por terrenos de cultivo do milho ao passar o cruzamento da N201 com a N308, resolvi fazer um pequeno desvio, parei num café para comprar uma bebida e reabastecer de água, tentei comprar fruta, mas sem sucesso uma vez que o minimercado estava encerrado, salvou-me a jovem do café, dispensando-me algumas laranjas e um BTTista de Silves a fazer o Caminho em companhia de um grupo de espanhóis, oriundos de Murcia, que me ofereceu um plátano. 

Piquenique no pinhal
Com a dupla Joaquim/Aguiar uns 10 a 15 minutos à frente, entrei numa zona de bosque. A subida de algum relevo, era amenizada pela sombra. Mais à frente reagrupámos novamente para uma pequena refeição, em jeito de piquenique.
Chegada a Ponte de Lima

A aproximação a Ponte de Lima era desejada, aqui efectuámos uma paragem para refeição na Tasca das Fodinhas, onde o Cardápio da Márcia era bem sugestivo, como podeis ver na foto.
Ponte de Lima e o Cardápio da Márcia

Não podíamos relaxar muito, como diz o velho ditado, o rabo é o pior de esfolar, e ainda tinha-mos que esfolar a subida da Serra da Labruja!

O esforço da subida


Subida da Labruja

Descer a Labruja também não é fácil, há sobretudo que ser cuidadoso, para não hipotecar o resto do Caminho.

Chegámos a Rubiães às 20:30, debaixo de um céu cinzento e ligeiros chuviscos, tendo pedalado nesta jornada 77,70 km.

Com o albergue lotado, restou-nos dormir na sala de refeições. Do pouco tempo que dispúnhamos ainda ouve lugar para entabular alguma conversa com o Vítor Matos de Coimbra e com a Olívia de Viana do Castelo e com alguns peregrinos espanhóis.

No entanto o duro final de jornada não podia terminar sem um merecido jantarinho no restaurante mais próximo do albergue, na companhia simpático pessoal de cozinha, do dono e do empregado de mesa.

Fotos do 3.º dia