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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Caminho Português pela Costa, 3.º dia, 13 de Setembro de 2014, de Caminha a Arcade

Igreja de Seixas
Noite tranquila e de profícuo descanso no Albergue de Caminha, as peregrinas da Catalunha, perante eventuais ruídos nocturnos procedente de sinfonia "ronqueira", ou evitaram simpaticamente pronunciar-se, ou então estariam tão fatigadas que a tudo resistiram. 
Gosto de pensar que tudo correu a preceito e não impedi ninguém de dormir, com incómodo ressonar. 
A jovem israelita foi a primeira a madrugar, e cedo colocou pés ao "Caminho". Também me despachei, mesmo sem o José Botelho e o Joaquim Tavares, companheiros habituais de anos anteriores, a atazanarem-me os ouvidos, consegui sair cedo. Era imperioso recuperar quilómetros. Não podia voltar a preguiçar como no primeiro dia, logo após a saída do Porto.


Rio Minho
Seguiu-se a rotina habitual de preparação dos alforges e da bicicleta, o sentido agradecimento ao simpático e prestável casal de hospitaleiros que tão bem me acolheram. Procurei um local onde tomar o pequeno almoço e uma pequena padaria/pastelaria, situada bem no no centro de Caminha foi o local escolhido. Aguardava-me pão ainda quentinho, com manteiga e o indispensável café com leite.
Chegado ao cais do rio Minho, onde pensei efectuar a travessia do rio para A Guarda, e percorrer o Caminho da Costa por "Oia", "Baiona", "Ramallosa", "O Freixo" e "Vigo", apanhando em "Redondela"  o Caminho Central, mudei de ideias e optei seguir o Caminho até Valença.

Cruzeiro -  Monte de Góios

O "ferry-boat" que habitualmente efectua a travessia do Minho não se encontrava operacional, a alternativa seria recorrer ao bote de um pescador local, caso tivesse decidido seguir por "A Guarda". No entanto como o transporte da bicicleta no comboio, a partir de Vigo, não se antevia fácil, decidi deixar em aberto a hipótese de fazer o Caminho pela Costa em sentido inverso, por Vigo, Ramallosa, Baiona Santa Maria de Oia e A Guarda, para o regresso a Portugal.


Vista sob o Solar da Loureira

À saída de Caminha, num parque de merendas, reencontrei as peregrinas da Catalunha, tirámos a tradicional foto em conjunto. O Caminho leva-nos agora em direcção a Seixas, atravessando a ponte sobre o rio Coura e ladeando a EN13, as marcações apontam para o interior da freguesia, pelo meio do casario, e alguns metros à frente podemos encontrar a igreja paroquial e o seu cruzeiro.
Pedalei na direcção da via-férrea, a qual atravessei por um pequeno túnel, o "Caminho" prossegue agora por um arruamento em calçada, junto à zona ribeirinha do rio Minho, num cenário verdadeiramente digno de assinalar. 
Segue depois para Lanhelas, por entre ruas ora em calçada regular ora em troços de pedras mais largas e lageadas.

Panorâmica sob o rio Minho

Continuando pelos bonitos, mas difíceis arruamentos em calçada, o Caminho penetra no concelho de Vila Nova de Cerveira pelo sopé do Monte de Góios, e assim vou serpenteando entre o casario tradicional, respirando por uma atmosfera idílica, para quem gosta de coisas simples, com uma satisfação enorme de penetrar no coração de uma região com uma beleza natural deslumbrante predominantemente verde, plena de um magnífico património arquitectónico rural que caracteriza muito bem a sua singularidade.



O "Caminho" no Paço do Outeiral

Já na freguesia de Gondarém duas edificações setecentistas prenderam-me a atenção pela traça arquitectónica e privilegiada localização sobranceira ao rio Minho, primeiro o Solar da Loureira, e, poucos metros mais à frente, o Paço do Outeiral, onde o percurso contorna a propriedade por um interessante caminho em calçada, designado como Caminho de Santiago.




O Paço do Outeiral é uma edificação de estilo setecentista, agora transformada em estalagem e que outrora dispunha no seu interior de uma pequena hospedaria exclusivamente dedicada a acolher peregrinos a Santiago. A ampla quinta que o rodeia possui férteis terrenos agrícolas e vinhedos que auto sustentam a estalagem.
Aqueduto no Paço do Outeiral

O Caminho é ladeado por um paredão em granito que sustenta um aqueduto, ligado ao edifício por meio de um arco adossado, constituindo sem dúvida um recanto pitoresco.
Continuando a pedalar pelas ruas em calçada, imprimi ritmo mais forte e rapidamente cheguei a Cerveira, apesar da dureza do piso. Sábado é dia de feira em Vila Nova de Cerveira, a vila é literalmente invadida por vizinhos do lado de cá e de lá da fronteira. É impressionante o mar de gente que acorre à povoação a fim de visitar a enorme feira, onde se vende de tudo. 
A necessidade de proceder ao reabastecimento alimentar levou-me ao mercado local onde comprei fruta e a um supermercado onde completei as compras para as indispensáveis refeições.

Cerveira e as capelinhas dos Passos da Paixão
Vila Nova de Cerveira merece indubitavelmente uma visita, pela sua história, graciosidade, que muito deve ao seu posicionamento geográfico, plantada na margem esquerda do Minho. Também o seu património arquitectónico é vasto e rico. Inserido no património religioso, as capelinhas dos Paços da Paixão, espalhadas pela vila mereceram a minha atenção. Foi pena não poder deambular por aqui mais um pouco.


De novo no "Caminho", pedalei até o corpo acusar algum desgaste, Decidi então parar num fontanário pitoresco a fim de me alimentar e também resguardar-me um pouco do sol, que estava forte.
São Pedro da Torre, Ponte de Chamosinhos
O Caminho Português da Costa segue o percurso da via romana "Per Loca Marítima" até Valença, o percurso é suave, não oferecendo dificuldade de maior. Grande parte do trajecto é paralelo à linha do Minho, entrando em Valença por São Pedro da Torre, um percurso rico em património e natureza com destaque para duas pontes romano / medievais, a de Chamosinhos, em São Pedro da Torre e a de Veiga da Mira, entre São Pedro da Torre e Arão.

Ponte de Chamosinhos
Segundo fonte da Câmara Municipal de Valença, "Os testemunhos históricos de peregrinos e mercadores, neste caminho, são muitos ao longo dos séculos, com destaque para a peregrinação do Rei Dom Manuel I que, na passagem por Valença, em 1502, mandou colocar a Esfera Armilar na Moradia Régia, hoje, Núcleo Museológico na Fortaleza".
Foi a chegar à vila quase deserta de São Pedro da Torres, era Sábado e hora de almoço, que alcancei a jovem israelita do albergue de Caminha, que obriguei a para me tirar uma foto. Sem dúvida levava uma velocidade de andamento fora do comum. 
Estava a terminar o Caminho da Costa e prestes a entrar em Valença e na sua fortaleza abaluartada, prestes a entrar na Galiza. Valença e Tui, face à proximidade, são praticamente a mesma cidade, numa ponte que se estabelece, não só através do ferro, do betão e do aço, mas sobretudo entre galegos e minhotos, entre espanhóis e portugueses.


O Caminho Central  e a variante a "O Porriño"


Praça Forte de Valença
Em Valença confluem o Caminho Central Português e o Caminho da Costa. O Caminho, agora de traçado único, leva-nos para a Fortaleza, que por mais que se visite é sempre um ponto incontornável a visitar, pela sua monumentalidade, posicionamento geográfico, comércio, gastronomia e vida, que tem muita. Ainda consegui encontrar uns minutos para conversar com um antigo colega da Faculdade de Letras de Coimbra. 

Guarita de vigilância

É incontornável não apreciar a fantástica panorâmica que se desfruta sobre o rio Minho e vizinhas terras da Galiza. Ainda na Fortaleza, carimbei a credencial na Pousada de São Teotónio e encetei a descida pelo lageado em direcção à ponte internacional rodo/ferroviária sobre o Minho.



Início do Caminho Português em Tui



Depois de atravessar o rio, já em "Tui" o Caminho leva-nos primeiro para próximo da zona ribeirinha, de onde saímos serpenteando pelas ruas estreitas e inclinadas até chegar finalmente à antiga Catedral. 
O sentido no café e o desejo de relaxar um pouco, levaram-me a um local paradisíaco, sobranceiro ao rio, com uma panorâmica extraordinária sobre o rio, e a monumentalidade de Tui e Valença.



Parque de lazer junto ao Minho - Tui
O  "Le Boulevard", cafetaria situada no coração da cidade, junto à "Glorieta de Vigo", onde se encontra um monumento aos cavalos selvagens, na varanda virada a sul, dispõe de uma admirável panorâmica sobre o rio Minho, local perfeito para desfrutar de um bom livro. É um local incontornável, sempre que visito Tui.
Aproveitei para comer mais um pouco, beber o indispensável "café con leche" e descansar um pouco.

Ponte Internacional Valença-Tui

É altura para falar um pouco do espírito do Caminho. Caminheiro, turista ou peregrino, sabe do que falo. Efectivamente quem faz o Caminho de Santiago sente uma sensação estranha e ao mesmo tempo boa, não se sabe explicar bem de que se trata, mas o certo é que é um sentimento comum aos caminhantes, viajem a pé, de bicicleta ou a cavalo. 



"Le Boulevard, em Tui"

Vale a pena sentir, saber do que se trata, mas, só experimentando. E não se trata de nenhum "cliché" de qualquer invenção produzida para atrair adeptos. Assim convido os meus amigos a ir em direcção a Compostela por terras lusas e hispânicas ao encontro do espírito do Caminho, logo sabereis o que é. Com uma certeza porém, à medida que nos acercamos de terras galegas sente-se com mais intensidade.


Ponte de Veiga
Hoje impunha-se que impusesse um ritmo mais célere  e assim deixei Tui para trás e internei-me pelo fresco do bosque que envolve o rio "Louro", num agradável troço do trajecto. Pedalar assim é fácil, quando a vertente cénica se torna agradável.
Na zona onde se situa a “Ponte de Veiga”, sobre o rio “Louro”, oportunidade para conversar um pouco com duas jovens peregrinas portuguesas que pela primeira vez faziam o Caminho. Evidenciaram bastante entusiasmo com a experiência que agora começavam..

Memorial a D. Telmo
Prossegui pelas margens do rio Louro, abrigado pela vegetação do frondoso bosque que o rodeia, até encontrar o mítico lugar onde se situa a ponte de “San Telmo,  que recebe o sobrenome de “Ponte das Febres”. Neste local é visível uma placa situada na cruz, junto à ponte, alusiva ao patrono de Tui, o Bispo Pedro Telmo, que aqui pereceu, fraco e com febre. Próximo da ponte, em plano de destaque pode ler-se: "caminhante aqui enfermou de morte San Telmo em Abril de 1251 pede-lhe que fale com Deus ao favor teu".

Ponte das Febres
De “Tui” a “Orbenlle”, é, sem desprimor para outros lugares e locais, um  dos troços mais bonitos e agradáveis de fazer do Caminho Português de Santiago.
Este ano optei por seguir entre “Orbenlle” e “O Porriño”, pela variante ao polígono industrial. Um percurso maravilhoso relativamente à desagradável e algo perigosa travessia do polígono, com muito tráfego automóvel e sem vegetação que nos permita resguardar a uma sombra para um momento de descanso.

Passagem da "Puente de Orbenlle"
Em “Orbenlle” são bem visíveis as marcas a negro, procurando ocultar a sinalética que aponta para a variante. Apesar da malvadez daqueles que insistem nos actos de vandalismo, o persistente trabalho dos “Amigos do Caminho” vai permitindo que se possa optar por seguir ao longo do rio “Louro”, resguardados na frescura do bosque, longe do perigo da circulação automóvel no polígono industrial de “O Porriño”, e ao mesmo tempo desfrutando da natureza, onde a água e o verde são imagens predominante, sem dúvida um belo percurso que alimenta a alma do caminhante, peregrino, bicigrino, ou turista, depende do espírito de cada um.

Orbenlle. Variante a "O Porriño".
Indicações vandalizadas. 
Há coisas simples, que em certos momentos representam muito. Em "O Porriño", beber uma coca-cola fresquinha, com uma pequena rodela de limão e umas pedrinhas de gêlo, sentado de forma relaxada numa esplanada foi um momento bastante agradável. 
Sobretudo para quem esgotou o cantil da água e ansiava loucamente por líquidos. Para que a coca-cola não soubesse a pouco bebi primeiro dois valentes copos do líquido mais precioso que pode existir e permite a nossa existência.


Variante a "O Porriño"


Não havia tempo a desperdiçar, embora estivesse a pedalar em bom ritmo, torna-se difícil resistir a uns momentos de pausa para saborear o fresco de uma coca-cola  com gelo e limão. “O Porriño” neste Sábado à tarde, estava plena de gente nas ruas, num ensurdecedor matraquear de palradores galegos. Depois de beber dois copos de água, veio a coca-cola tão ansiada, para repor o açúcar perdido.



Com alguma dificuldade de progressão, atendendo ao elevado número de passeantes, lá segui pelo Caminho, em direcção a “Mos”.
"O Porriño"
Poucos quilómetros separam as localidades de “O Porriño” e “Mos”, No entanto,  aqui chegado, não resisti a entrar no "Alpendre", o mesmo local onde há um ano atrás tinha degustado umas miniaturas de "empanadas galegas" maravilhosas, na companhia dos meus amigos. Os estalajadeiros são  simpáticos, o ambiente acolhedor. Uma parreira sob o terraço da entrada  acrescenta ao edifício de linhas modestas o ar pitoresco, hamoniosamente enquadrado enquadrado na praça, onde se destaca o Palácio ou "Pazo dos Marqueses de Mos". 


"O Alpendre - Mos"
A ameaça da subida da "Rua do Cabaleiros" até à meseta, foi argumento suficiente para não resistir à oferta de um "pincho" e acompanhar com uma loura fresquinha, a famosa “Estrella Galicia”, sem álcool, que me sufragou a sede, acompanhada das últimas duas porções de "empanadas" que me estavam reservadas e que mastiguei devagarinho, saboreando cada dentada em jeito de homenagem ao Joaquim Tavares e ao José Botelho.



"Meseta de Chan de Pipas" 

Como não queria perder ritmo, encetei a subida decidido, passei mesmo por um grupo de ciclistas de Braga, que apesar de mais frescos e leves conheceram a vergonha de ser ultrapassados por um tipo de alforges, a rondar os 10 kg de peso. Ainda mostraram alguma reacção para não ser ultrapassados mas foram ficando para trás na forte subida até ao "Alto do Inxertado".
O "Caminho" segue agora a Via Romana, assinalada pelo miliário de "Vilar da Infesta", atravessando a meseta de "Chan das Pipas".
"Redondela" - Albergue


Após a planície de "Chan das Pipas", descemos até enveredar pela N550, para chegar a Redondela. Próximo do albergue, um enorme desfile motards fez-me aguardar algum tempo para poder prosseguir o Caminho, novamente a subir até ao cume "Eido dos Mouros". O dia aproximava-se a passos largos da noite.
Na descida para Arcade, vieiras.


Ainda pensei que poderia dormir em Pontevedra, mas corria o risco de não encontrar lugar no albergue, e, mesmo que encontrasse, o recolher obrigatório é às 22:00.
Iniciei a descida para Arcade, com uma magnífica panorâmica da Ria de Vigo e à esquerda a mítica ilha de "San Simon". Para além de ter fama de ser a capital das ostras, "Arcade" é uma localidade da Galiza que conjuga talvez como nenhuma outra os sabores campestres e marinheiros.  

Vista de "Arcade"
Não foi difícil encontrar albergue. O "Lar de Pepa" serviu-me de refúgio, nesta altura do ano tinha poucos peregrinos, fui o único ocupante de um quarto com quatro camas, embora tivesse no albergue a companhia de demais peregrinos em outros quartos.
O estalajadeiro era um simpático e prestável lisboeta que se encontrava a dar uma ajuda aos amigos, proprietários do "Lar de Pepa".  



Albergue "Lar de Pepa"
Aqui pude repousar tranquilamente e recuperar do esforço despendido na jornada mais longa deste meu "Caminho", a mais penosa talvez tenha sido entre Marinas e Caminha, pela dureza do percurso predominantemente em calçada. Um prolongado duche, primeiro com cerca de 4 minutos a projectar água fria sobre as pernas, para melhor recuperação e depois sim, a satisfação de sentir a água quente para relaxar o resto do corpo.

Assim, após cumprir 87 km da jornada e como o dia ainda não tinha terminado, uma passeata por "Arcade" a fim de "pinchar" algumas tapas pareceu-me apropriado. No entanto a fadiga estava a vencer e impediu que me alongasse em passeios e assim, o regresso ao "Lar de Pepa" não tardou muito a acontecera, de modo a descansar para enfrentar, com calma, os cerca de 80 km que ainda faltava concluir para a derradeira jornada até Santiago de Compostela.

sábado, 28 de setembro de 2013

Crónica do 4.º dia do Caminho Português, entre Rubiães e Pontevedra

Rubiães, 02 de Agosto de 2013.

 A noite foi atribulada, um peregrino de nacionalidade alemã passou mal, pelo que foi necessário chamar por socorro médico. Na altura não percebemos bem o que se estava a passar, pensei, inclusive, que seriam os primeiros peregrinos a sair do albergue. O Aguiar continuou sempre ferrado que nem uma pedra, não deu por nada. Finalmente uma noite sem que se tivesse dado  por ele. 

Este dia iria ser diferente dos anteriores, saímos do albergue, pelas 07:56,  à medida que se progredia no Caminho, encontrávamos cada vez mais peregrinos. O pequeno almoço foi tomado em Rubiães, onde contámos com a simpatia  e boa disposição do proprietário.

Primeiras horas do Caminho, após saída do albergue de Rubiães

Na véspera, apesar de termos chegado tarde ainda convivemos um pouco com alguns peregrinos espanhóis, fiquei também a saber pela Olívia, de Viana do Castelo, que as melhores Bolas de Berlim são as do Manel e não do Zé, estou a referir-me ao Natário, que tem as melhores Bolas de Berlim do Mundo. 

Após o pequeno almoço aproveitei para trocar contactos com o Vítor Matos, de Coimbra, que fazia a peregrinação na companhia de um espanhol de Saragoça e de uma rapariga de Valência.

A jornada que marcou a entrada do Caminho Português por terras da Galiza,  foi caracterizada pelas frequentes paragens, ora para trocar dois dedos de prosa com os peregrinos, ora para as indispensáveis fotos, ou para reabastecimento.

Continuámos a passar pelos peregrinos que viajavam quer em grupos quer individualmente e a transmitir a saudação habitual: Bom Caminho. 

Antiga ponte do rio Minho
Em São Bento da Porta Aberta, continuámos por terreno montanhoso, em direcção a Gontomil, altura em que houve lugar para uma foto de conjunto com cerca de  40 a 50 peregrinos americanos. Após este animado encontro, seguiu-se a Olívia de Viana do Minho e as suas divertidas colegas valencianas. 
A entrada em Valença foi acompanhada por chuva ligeira, que depressa desapareceu. Subimos à Fortaleza, onde é sempre agradável a vista sobre o Minho bem como para o outro lado da fronteira. Depois de algumas fotos prosseguimos, descendo da Fortaleza em direcção ao antigo posto fronteiriço.
Enquanto atravessava a velha ponte, não resisti a tirar algumas fotos. Estava entusiasmado, tantas foram as vezes que por ali andei, sempre com o mesmo pensamento: "um dia hei-de fazer o Caminho". 

A entrada em Tui, pelo Caminho Português, tinha que ser assinalada, precisamente junto ao primeiro marco que encontrámos em território galego, e aí tirámos a habitual foto de conjunto.

Prosseguimos pelo vale do rio Minho até encontrar a Ponte da Veiga, antes desta ponte medieval virámos à esquerda, seguindo num passeio agradável por frondosos  bosques.

Monumento ao peregrino, ao fundo a Ponte de Veiga

Continuámos a seguir as as setas e fizemos uma pausa na histórica Ponte das Febres ou de São Telmo, onde é visível uma placa com os seguintes dizeres Aquí enfermó de muerte São Telmo, en abril de 1246. Pídele que hable con Dios en favor tuyo. São Telmo, bispo patrono de Tuy e de Frómista, faleceu neste local quando se dirigia em peregrinação a Compostela.


Ponte das Febres ou de São Telmo

Seguimos pelos bosques até A Madalena, continuámos alcançando outra ponte medieval, a Puente de Orbenlle sobre o rio Louro. Atravessamos a ponte e iniciamos uma ligeira subida até chegar ao Polígono Industrial das Gándaras.

As sucessivas paragens que o Caminho impõe, traduzem-se numa velocidade média mais baixa, assim, nalgumas ocasiões temos que compensar o tempo gasto, para não desvirtuar o plano traçado.
Puente de Orbenlle
A travessia do Polígono Industrial do Porriño foi efectuada debaixo de um sol forte, e com a maior velocidade que as pernas permitiam, dado tratar-se de uma zona pouco agradável, muito exposta e movimentada, sem dúvida o ponto negro do Caminho Português, na Galiza, finalmente, depois de um esticão mais forte, para passar o quanto antes a zona industrial, chegámos a Porriño.
Porriño, centro histórico

Prosseguimos pela estrada que liga Porriño a Redondela, abandonando-a um pouco à frente, na direcção de Amieiro Longo.
Apesar de o dia ter começado cinzento e até com alguma chuva em Valença, a tarde estava com um sol forte. Assim, em Mos, parámos para beber uma bebida refrescante junto ao Palácio e à igreja barroca de Santa Eulalia.

Duas peregrinas a iniciar a subida da rua dos Cabaleiros

A acompanhar as bebidas, foram-nos gentilmente oferecidas umas porções de empanada Galega. Posso dizer que vieram mesmo a calhar, o corpo precisava de algum combustível para iniciar, desde Mos a subida de um dos lugares mais simbólicos do Caminho Português, a ingreme subida da Rúa dos Cabaleiros.

A subida da Rua dos Cabaleiros, Mos

Após a difícil subida até ao alto do Inxertado, aqui penso termos recebido a justa recompensa, pela dupla e agradável paisagem verde, dos bosques e dos terrenos sempre muito bem cultivados. 

A Galiza faz bem ao corpo e à alma, a agradável sensação de percorrer terras galegas é indescritível, mas seguramente absorvida por todos quantos trilham estes caminhos.  

Inicio da meseta de Chan de Pipas pela via Romana

O Caminho segue a Via Romana, assinalada pelo miliário de Vilar de Infesta, atravessando a meseta de Chan das Pipas.

Após a planura de Chan de Pipas, descemos pelo Caminho que envereda pela N550. e depressa chegámos a Redondela, numa altura em que começou a rarear o encontro com os demais peregrinos, a esta hora, muitos já se encontrariam instalados nos albergues. Mas não podíamos pensar ainda em encostar as bicicletas, para nós a jornada teria que terminar em Pontevedra.


Próximo de Redondela

Em Redondela efectuámos uma paragem junto ao albergue, situado num edifício histórico do século XVI, conhecido como Casa da Torre, que se destaca pela sua arquitectura e pelo seu uso prático e cultural. 

Albergue da Casa da Torre, Redondela

Ao sair de Redondela comecei a acusar alguma fadiga, um pouco motivada pelo ritmo inconstante e a necessidade de uma refeição, ainda que ligeira, do que pelo acumular de quilómetros  realizados. 

Passada a ponte do caminho de ferro, segundo informações concelhias, da autoria de Eiffel, o Caminho sobe, rodeado por uma zona arborizada, atingido o cume, iniciámos a descida,  interrompida para observar e fotografar a Ría de Vigo e a ilha de San Simón.
Ria de Vigo e a ilha de San Simón




























Encontrámos de novo a N550, que percorremos, entrando em Arcade, capital das ostras na Galiza. Bem que nos apetecia forrar aqui o estômago, mas era importante chegar, ainda dia, a Pontevedra, assim decidimos que o melhor era mesmo tratar do assunto em Pontevedra, já com banho tomado.
Ponte medieval em Pontesampaio

Seguia o Aguiar na frente, secundado pelo Joaquim e ainda pensava na paella que ficou para trás, quando vejo um automóvel sair de uma curva que antecede a histórica Ponte Sampaio, a toda a velocidade e quase desgovernado. Não sei se foi Santiago, mas por pouco o enorme susto não tinha virado em tragédia.
Pontesampaio

Passada a histórica ponte sobre as águas do rio Verdugo, entrámos em Pontesampaio. Seguimos um dos troços mais bonitos do Caminho Português, na Galiza, a Vrea Vella da Canicoubar, subimos o antigo caminho empedrado até à encruzilhada para Nuestra Señora de Amil, frequentado desde as épocas mais remotas e onde são visíveis marcas das rodas dos carros, sulcadas nas velhas lousas.
Vrea Vella da Canicoubar

Continuámos em direcção a Pontevedra, descendo o Caminho, rodeados por pinheiros, até aos 
vales de Alcouce e Boullosa. A paisagem modifica-se à medida que progredimos, chegando finalmente ao albergue de Pontevedra.
Velha calçada romana
Seguiram-se os afazeres normais até ficarmos instalados, e, após o duche, arriscámos sair do albergue para jantar no centro da cidade.
A descer para Pontevedra
A partir daqui aconteceu um pouco de tudo, o jantar que coube melhor em sorte ao Joaquim e ao Aguiar, com um aperitivo de deliciosos mexilhões, chuva no regresso, albergue fechado, a termos que passar as bicicletas por cima do gradeamento, e, quando pensámos que o pior tinha passado, as portas do albergue estavam fechadas.

Foi uma sorte umas portuguesas de Braga terem ouvido a minha chamada,  sorte porque uma delas reconheceu a minha voz, de termos estado a tagarelar antes da saída para o jantar.

Mas não foi tudo, de tanta pressa que estava, tinha esquecido carteira com dinheiro, máquina fotográfica , tudo, no pátio do albergue. Não fora uma malta de Braga que também estava a fazer o caminho de bici e estava feito. 


Um bom jantar na Galiza , dá sempre para ficar alegre
Percorremos na jornada 76 km, chegámos a Pontevedra por volta das 20:00, um pouco exaustos e a necessitar de um bom duche, como de água para beber.