segunda-feira, 24 de junho de 2013

Caminho Inglês

Caminho Inglês 2009

Um pouco da história


Ferrol - Início do Caminho
O Caminho Inglês foi uma rota de peregrinação jacobeia  muito utilizada na Idade Média, em alternativa à rota mais seguida pelos peregrinos, o Caminho Francês.

Aos portos de Ferrol e Corunha, assim como a Ribadeo e Viveiro, afluíam peregrinos de barco provenientes das ilhas britânicas, das penínsulas escandinavas, alemães e flamengos.

No século XII, mais precisamente no ano de 1147, a esquadra da Segunda Cruzada, com destino à Terra Santa, de má memória para os cristãos, efectuou, a pé, o caminho entre os portos Ferrol e da Corunha e Santiago de Compostela, com o fim de visitar o túmulo do apóstolo, antes de participar naquela que foi a única vitória cristã, precisamente a reconquista de Lisboa, em 1147, sob a solicitação de Dom Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal. 

Torre dos Andrades - Pontedeume
Do primeiro itinerário marítimo conhecido,  sabe-se que foi escrito entre 1154 e 1159, por um monge islandês, que relata a sua viagem desde a Islândia até Bergen na Noruega, passando pelo canal de Kiel, na fronteira entre a Dinamarca e Alemanha.  O monge seguiu a pé até Roma, a caminho da Terra Santa, outros, escandinavos e islandeses, fizeram a rota a pé, por Roncesvalles, enquanto outros aportaram ao norte da Península Ibérica, fazendo depois a rota a pé, pelo Caminho Inglês até Santiago.

Nos séculos XIV e XV a Guerra dos Cem Anos, entre ingleses e franceses, fez crescer os utilizadores deste itinerário, com muitos peregrinos a chegarem de barco aos locais atrás referidos, e provenientes de Londres, Bristol, Southampton e Plymouth, aproveitando também para efectuar trocas comerciais com mercadores galegos.

O Caminho Inglês conheceu passou a ser pouco menos utilizado a partir da ruptura assumida por Henrique VII (1509-1549) com a Igreja Católica.


O meu Caminho Inglês em 2009


Gare de Compostela
Em 04 de Setembro de 2009 iniciámos a viagem de automóvel de Coimbra até Santiago de Compostela.

O planeado era viajar de  comboio até à Corunha e daqui fazer a ligação a Ferrol em bicicleta, para percorrer o Caminho Inglês até Compostela em dois dias.

Assim, nesse mesmo dia 4 de Setembro fomos dormir no albergue de Neda, para iniciar no dia seguinte a nossa empresa. O albergue ficou por nossa conta, apenas um peregrino alemão nos fez companhia.

Ligação Corunha-Ferrol
Em 2008, quando em companhia do Joaquim Tavares e do José Botelho fizemos o Santiago-Finisterra - Muxia,  já tinha ficado no ar a intenção de fazermos um  Caminho em 2009,  mais tarde decidimos que seria o Caminho Inglês, a partir de Ferrol. Também o poderíamos ter percorrido a partir da Corunha ou mesmo Ribadeo, a dúvida subsistiu quase até ao fim.

Em Ferrol, para além se tomar o pequeno almoço, aproveitámos para visitar e fotografar a cidade natal do Caudilho, o General Franco, figura controversa e incontornável que marcou sem dúvida um longo período da história de Espanha e peninsular.


Ferrol - Praça do Caudilho

Para além de uma volta pelo centro histórico, aproveitámos para espreitar o arsenal da marinha espanhola. No Porto Antigo, iniciámos o Caminho, precisamente junto ao marco que o assinala. Prosseguimos paralelos à baia de Ferrol até chegar a Neda, onde dormíramos na véspera e onde nos cruzámos com a sinalização do caminho que leva ao santuário de Santo André de Teixido.

Ponte pedonal - Neda
Também conhecido como Santo André de Lonche ou Santo André do Cabo do Mundo e que se situa  a cerca de 12 km de Cedeira, no meio da serra da Capelada, em redor da costa de Ortegal,escondido entre penhascos e bosques, numa zona de escarpada orografia, o lugar está protegido de temporais, com características de promontórios celtas, que procuravam espaços mágicos que penetrassem no mar.

Assim, de Neda seguimos para Fene, passando perto dos estaleiros e a partir desta localidade subimos um monte até encontrarmos a estrada paralela ao Caminho que nos levou a Cabanas, 

Playa da Magdalena - Cabanas
Antes, porém, o Botelho e o Joaquim, enquanto bebiam a sua cervejinha resolveram  tirar todas as medidas da praia de Cabanas!!  No meu caso preferi adoptar uma atitude mais deinteressada, face à paisagem das montanhas!!!


Em Pontedeume  apreciei o seu excelente enquadramento paisagístico, onde a ponte, a baia e a Torre dos Andrades são, sem dúvida, os seus ex-libris.
Pontedeume
Depois de Bañobre, cruzámos a ponte medieval sobre o río Baxoi, coincidindo com o Caminho Real, andámos cerca 300m. por um caminho de terra até chegar a Miño , onde gozámos um banho na ria e nos deliciámos com a cozinha galega, num restaurante integrado na zona verde contígua à praia.

 Ponte medieval sobre o río Baxoi,
Particularmente saboreei uns magníficos Chipirones, enquanto o Quim e o Zé se entretiveram com um bem confeccionado prato de carne de cerdo  e batatinhas fritas.

Após o banho na praia e a farta refeição, quem iria vencer a subida de forte inclinação, apenas pela sombra de proveniente de frondosos bosques de carvalhos e castanheiros, para chegar a Betanzos?!

Praça central de Betanzos, antiga capital da Galiza

Mas, lá tivemos que prosseguir para  a bonita cidade Betanzos, antiga capital da Galiza, onde decidimos pernoitar. Trata-se de uma cidade tipicamente galega, banhada pela ria que lhe dá o nome e a graça.

O Caminho Inglês caracteriza-se sobretudo pelo verde dos bosques, com uma primeira parte a decorrer paralela à ria de Ferrol e depois de Betanzos. As duas subidas de relevo mais acentuado, embora difíceis, também não nada que não se possa fazer.

Peregrinos a cavalo no Caminho Inglês
É um Caminho tranquilo onde se convive muito bem com a natureza e a pacatez do quotidiano rural galego. A sombra dos bosques na maior parte do seu trajecto ajuda a torná-lo bastante agradável de percorrer.

Os Três Santiagos Matamouros 
A chegada a Santiago é sempre mítica, com o aproximar da Praça do Obradoiro sente-se mais presente o espírito do Caminho . Quase em sobreposição à alegria de mais uma etapa cumprida, é indisfarçável uma certa nostalgia, ficando a ideia, quase o compromisso, de repetir no ano seguinte.


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