quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Caminho Português da Costa

De Aveiro ao Porto pela costa.

Ciclovia da Cortegaça
O desencontro de datas impediu que neste Verão pudesse fazer os Caminhos de Santiago em bicicleta, como tem sido hábito desde 2008, com o Joaquim Tavares e o José Botelho, apenas com um interregno entre 2010 e 2011.

No entanto, não consegui resistir a uma forte vontade de seguir as setas amarelas, a partir de um qualquer lugar.

Surgiram duas hipóteses, iniciar a 27 de Setembro a “Via de la Plata”, a partir de Salamanca, cidade irmã de Coimbra, ou, não querendo rumar para tão longe ir até à Invicta e conhecer o Caminho da Costa.

Optei pela segunda e, a 10 de Setembro, na companhia do amigo João Paulo, tomámos a direcção do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra, onde adquiri e carimbei a credencial de peregrino. No entanto, oficialmente apenas comecei a fazer o Caminho da Costa, a partir do Porto, no dia seguinte.
Rumámos até Aveiro, estacionando o automóvel próximo da estação de caminho de ferro, onde montei a bicicleta, desta vez não me esqueci da roda em Coimbra!


Senhora da Pedra
A partir de Aveiro e ao longo da ria, iniciámos um passeio pelo litoral, pedalando pelas ciclovias existentes e aproveitando para visitar algumas praias: Furadouro, Cortegaça, Esmoriz, Espinho, Senhora da Pedra, Afurada, Gaia e finalmente o Porto, sempre "escoltado" pelo João Paulo,  com grande inveja de não me poder continuar a acompanhar, por razões profissionais,

Como não tinha reservado alojamento, pensei que teria de me dirigir o quanto antes à Pousada de Juventude, mas ainda subi à Sé, seguindo as setas amarelas, para carimbar a credencial, e marcar o início oficial do Caminho de Santiago pela Costa.


Gaia/Porto, final do 1.º dia de ligação.
Não posso deixar de fazer um apelo à Câmara Municipal do Porto, pedindo o melhoramento da sinalética para Compostela. Sei que aos peregrinos não se dá grande importância, mas como também há muitos turistas que igualmente fazem os Caminhos a partir do Porto, talvez esses sejam objecto de maior atenção. Mesmo por uma questão de imagem, como está tão em voga dizer-se.

Na pousada da juventude ainda houve tempo para fazer alguns amigos, das Canárias, do Brasil e da Irlanda. Ter de cozinhar "raviolli" não teve a mesma graça que no ano de 2013, onde preparei massa com atum para a minha pessoa, para o José e para o Quim.

1.º dia no Caminho Português de Santiago pela Costa, a partir do Porto.



Senhor do Padrão ou Senhor da Areia  - Matosinhos
Logo que iníciei a 1.ª jornada, encontrei os primeiros peregrinos, ainda na Foz. Fui pedalando de forma pachorrenta, não tinha ninguém à minha espera, nem o Quim e o Aguiar a puxar por mim, e assim fui desfrutando do ar e da indiscutível beleza da paisagem marítima.

Depressa cheguei a Vila do Conde, mesmo com imensas paragens para captar algumas fotos, indispensável reabastecimento e entabuar conversa com um ou outro peregrino.








Vila do Conde
Até Vila do Conde tudo estava a correr muito bem, mas a confusão e inexistência de um critério bem definido na sinalização do Caminho fizeram-me perder tempo precioso e andar por voltas desnecessárias.

Mas, mais grave que a ausência de sinalética é a sua péssima colocação, ainda para mais numa cidade com história inquestionável no âmbito do fenómeno das peregrinações a Santiago.


Ainda em Vila do Conde, para ajudar à festa da “sinalética”, um furo e um raio partido também me subtraíram tempo precioso.


Fão, foz do Cávado
Mas, depois de passada a ameaça da chuva, lá prossegui para a Póvoa, depois até Esposende, onde fui dar à “Propedal”, do Sr. Manuel Rocha, grande amigo e conhecedor dos Caminhos, principalmente o da Costa, sobre o qual tem realizado meritório trabalho. Bem haja amigo Manuel Rocha e assim continue.
Esposende

Colocado o raio e desempenada a roda, o amigo Manuel Rocha aconselhou-me a pernoitar no Albergue das Marinhas, pertença da Cruz Vermelha, onde fui extremamente bem acolhido pelas jovens voluntárias. No albergue apenas se encontravam alojados um casal de holandeses e um peregrino proveniente do Porto, também a viajar de bicicleta.



Poucos quilómetros efectuados neste dia, apenas 67, o que envolverá compensações obrigatórias, ao plano inicialmente traçado, de pernoitar em Viana do Castelo, no final do 1.º dia de Caminho.










A descer para o Neiva

Terça Feira, 16 de Setembro de 2014


Embora a chuva ameaçasse, uma ligeira brisa e a temperatura amena favoreciam o andamento.
O ritual matutino acaba por ser idêntico, variando apenas de lugar para lugar. Preparar a bicicleta, montar os alforges, este ano um pouco mais pesados que o habitual, aprovisionar água quanto baste e demais utilidades necessárias à jornada.

A primeira boa surpresa do dia surgiu próximo do rio Neiva.  Um bonito percurso em terra, estreito e sinuoso, percorrido na companhia de um grupo de Braga, folgados no peso das bicicletas e nos quilómetros. Boa malta.





Em alguns pontos do percurso é mesmo necessário apearmo-nos das bicicletas, ou porque era impossível pedalar ou porque os alforges se soltavam, perante tantos embates, com paragem obrigatória para a sua fixação.

A passagem sobre o Neiva, pela ponte do Sebastião oferece um momento de indiscutível beleza. Após a passagem do rio, continuei nas fotos e agradeci o convite da malta de Braga para os acompanhar, mas este ano estava com outro sentido de Caminho, preferia rolar impondo o meu ritmo, parando quando me apetecesse, ou dar uma sapatada quando necessário. Curiosamente sentia-me em forma, nunca virei a cara a alguma subida mais difícil, também não se encontram muitas por este Caminho da Costa.


Igreja de Santiago - C. Neiva
Em Castelo do Neiva, antes de subir à igreja de Santiago, a mais antiga consagrada ao apóstolo, fora do território espanhol, aproveitei para me instalar num café e tomar o indispensável café com leite e o pão com manteiga, um telefonema, no final ainda houve tempo para estar à conversa com o amigo Álvaro Cardoso, que invejou não me poder acompanhar.

Na descida, uma pequena distracção impediu que tivesse passado no Mosteiro de São Romão. Retomei o Caminho em Chafé, onde coincide com a Estrada Real. Depois foi seguir as setas até Darque e Viana do Castelo, onde a passagem pela ponte Eiffel é sem dúvida um momento apreciado.


Seguir as setas em aglomerados urbanos de alguma dimensão, por vezes é tarefa difícil, especialmente quando a sinalização não é muito evidente. Em Viana, o Caminho está bem sinalizado, no entanto a reduzida dimensão da vieira e das setas pode levar ao engano os peregrinos mais distraídos.

Mas não podia passar em Viana sem uma ida ao Natário. Substituí o almoço por um lanche antecipado, não dispensando a famosa bola de berlim e um saboroso croissant com fiambre.


Saindo de Viana, o caminho envereda entre quintas e ambientes pitorescos, passando junto de antigos penedos gravados, por casas agrícolas, igrejas, capelas, e cruzeiros, abrigado pela frescura das árvores que abundam neste troço.


Saindo de Viana
Antes de chegar a Afife, trilha-se um caminho florestal até Cabanas, onde se cruza o ribeiro com o mesmo nome, que desce a Serra de Santa Luzia a caminho do mar. A beleza da paisagem e a frescura do ribeiro, abrigado sob castanheiros e carvalhos, foram motivos de sobra para forçar uma paragem e desfrutar do momento, comendo calmamente um cacho de uvas deliciosas.







O rio em Cabanas, na subida para Agrichouso 

De Cabanas o Caminho sobe a Agrichouso, passando pelo lugar da Pedreira até encontrar o trilho, empedrado, que o conduz até ao cruzeiro do Vale para dali alcançar o lugar da Matança, junto à velha Cividade de Afife, castro ocupado aproximadamente entre 200 a.C. e 200 d.C.



Cruzeiro da Matança

Aqui se entra no concelho de Caminha, descendo sempre a direito por caminhos florestais encontramos casario, depois um fontanário, o Cruzeiro Novo e chegamos à Ponte da Torre, de finais do século XVII, com lajes baixas e que, antes da construção da nova estrada real em 1856, permitia a passagem de pessoas e de bens sobre o rio Âncora.


Finalmente Vila Praia de Âncora, por entre campos de cultivos e por antigos troços lajeados, alcanço a rua Miguel Bombarda, eixo de ligação entre as comunidades agrícola, comercial e piscatória locais.







Festividades em Âncora


Na Praça da República, onde se pode admirar a artística capela da Sra. da Bonança, padroeira dos pescadores, decorrem com grande animação as festividades de Setembro com ponto alto na procissão naval com a solene bênção das embarcações. 

Na antiga via romana, podem encontrar-se na areia até à chegada da zona urbana de Moledo, alguns vestígios de instrumentos datáveis entre 15 000 e 10 000 a.C., salinas romanas e medievais, camboas para aprisionamento de peixe e flora dunar autóctone.

Continuando a pedalar, entro em Caminha através do antigo Caminho de Viana, hoje rua dos Pescadores, de casario baixo e típico, saúdo duas peregrinas espanholas, com quem entabulei breves minutos de conversa.

às portas de Caminha
No centro monumental de Caminha destacam-se a Torre do Relógio e o extraordinário chafariz de cantaria do século XVI, entre outras edificações.


Ultrapassada a Torre do Relógio, segui pela rua Direita ou dos "Meyos", eixo vertebral do amuralhado medieval, e, ao longo das ruas estreitas, forradas a lajes gastas pelo tempo,  alcanço o albergue de peregrinos, onde um simpático casal de hospitaleiros voluntários saúda a minha chegada. Informo que virão por certo mais duas peregrinas.



Decidi voltar atrás, a fim de poder indicar mais rapidamente o albergue às peregrinas com quem falei, mas o desencontro fez com que chegassem ao albergue sem necessitar da minha ajuda. Fui informado pelo casal de hospitaleiros que apenas eu, as peregrinas espanholas, uma jovem israelita e eles mesmos, seríamos os únicos ocupantes do albergue.

Combinei com as duas chicas fazer pasta com atum, e assim se cozinhou o jantar, acabando ainda por sobrar alguma comida.

O Monte de Santa Tecla- A Guarda
Ainda houve tempo para tomar um café na Praça e degustar uma guloseima típica de Caminha. Depois foi caminhar apenas para apanhar o fresco da noite e esticar as pernas, para recuperar.

Procurando fazer um balanço sucinto, apesar de poucos quilómetros percorridos, cerca de 63, a jornada foi sem dúvida gratificante, o enquadramento cénico do trajecto, paisagem tipicamente minhota, é formidável, a disponibilidade física encontrava níveis satisfatórios, apesar da dureza do Caminho, com muita pedra, ora tratando-se de paralelos ou lajeados ainda mais agressivos, face à suas formas irregulares.

Igreja de Seixas
Noite tranquila e de profícuo descanso no Albergue de Caminha, as peregrinas da Catalunha, perante eventuais ruídos nocturnos procedente de sinfonia "ronqueira", ou evitaram simpaticamente pronunciar-se, ou então estariam tão fatigadas que a tudo resistiram. 
Gosto de pensar que tudo correu a preceito e não impedi ninguém de dormir, com incómodo ressonar. 
A jovem israelita foi a primeira a madrugar, e cedo colocou pés ao "Caminho". Também me despachei, mesmo sem o José Botelho e o Joaquim Tavares, companheiros habituais de anos anteriores, a atazanarem-me os ouvidos, consegui sair cedo. Era imperioso recuperar quilómetros. Não podia voltar a preguiçar como no primeiro dia, logo após a saída do Porto.


Rio Minho
Seguiu-se a rotina habitual de preparação dos alforges e da bicicleta, o sentido agradecimento ao simpático e prestável casal de hospitaleiros que tão bem me acolheram. Procurei um local onde tomar o pequeno almoço e uma pequena padaria/pastelaria, situada bem no no centro de Caminha foi o local escolhido. Aguardava-me pão ainda quentinho, com manteiga e o indispensável café com leite.
Chegado ao cais do rio Minho, onde pensei efectuar a travessia do rio para A Guarda, e percorrer o Caminho da Costa por "Oia", "Baiona", "Ramallosa", "O Freixo" e "Vigo", apanhando em "Redondela"  o Caminho Central, mudei de ideias e optei seguir o Caminho até Valença.

Cruzeiro -  Monte de Góios

O "ferry-boat" que habitualmente efectua a travessia do Minho não se encontrava operacional, a alternativa seria recorrer ao bote de um pescador local, caso tivesse decidido seguir por "A Guarda". No entanto como o transporte da bicicleta no comboio, a partir de Vigo, não se antevia fácil, decidi deixar em aberto a hipótese de fazer o Caminho pela Costa em sentido inverso, por Vigo, Ramallosa, Baiona Santa Maria de Oia e A Guarda, para o regresso a Portugal.


Vista sob o Solar da Loureira

À saída de Caminha, num parque de merendas, reencontrei as peregrinas da Catalunha, tirámos a tradicional foto em conjunto. O Caminho leva-nos agora em direcção a Seixas, atravessando a ponte sobre o rio Coura e ladeando a EN13, as marcações apontam para o interior da freguesia, pelo meio do casario, e alguns metros à frente podemos encontrar a igreja paroquial e o seu cruzeiro.
Pedalei na direcção da via-férrea, a qual atravessei por um pequeno túnel, o "Caminho" prossegue agora por um arruamento em calçada, junto à zona ribeirinha do rio Minho, num cenário verdadeiramente digno de assinalar. 
Segue depois para Lanhelas, por entre ruas ora em calçada regular ora em troços de pedras mais largas e lageadas.

Panorâmica sob o rio Minho

Continuando pelos bonitos, mas difíceis arruamentos em calçada, o Caminho penetra no concelho de Vila Nova de Cerveira pelo sopé do Monte de Góios, e assim vou serpenteando entre o casario tradicional, respirando por uma atmosfera idílica, para quem gosta de coisas simples, com uma satisfação enorme de penetrar no coração de uma região com uma beleza natural deslumbrante predominantemente verde, plena de um magnífico património arquitectónico rural que caracteriza muito bem a sua singularidade.



O "Caminho" no Paço do Outeiral

Já na freguesia de Gondarém duas edificações setecentistas prenderam-me a atenção pela traça arquitectónica e privilegiada localização sobranceira ao rio Minho, primeiro o Solar da Loureira, e, poucos metros mais à frente, o Paço do Outeiral, onde o percurso contorna a propriedade por um interessante caminho em calçada, designado como Caminho de Santiago.


O Paço do Outeiral é uma edificação de estilo setecentista, agora transformada em estalagem e que outrora dispunha no seu interior de uma pequena hospedaria exclusivamente dedicada a acolher peregrinos a Santiago. A ampla quinta que o rodeia possui férteis terrenos agrícolas e vinhedos que auto sustentam a estalagem.
Aqueduto no Paço do Outeiral

O Caminho é ladeado por um paredão em granito que sustenta um aqueduto, ligado ao edifício por meio de um arco adossado, constituindo sem dúvida um recanto pitoresco.
Continuando a pedalar pelas ruas em calçada, imprimi ritmo mais forte e rapidamente cheguei a Cerveira, apesar da dureza do piso. Sábado é dia de feira em Vila Nova de Cerveira, a vila é literalmente invadida por vizinhos do lado de cá e de lá da fronteira. É impressionante o mar de gente que acorre à povoação a fim de visitar a enorme feira, onde se vende de tudo. 
A necessidade de proceder ao reabastecimento alimentar levou-me ao mercado local onde comprei fruta e a um supermercado onde completei as compras para as indispensáveis refeições.

Cerveira e as capelinhas dos Passos da Paixão
Vila Nova de Cerveira merece indubitavelmente uma visita, pela sua história, graciosidade, que muito deve ao seu posicionamento geográfico, plantada na margem esquerda do Minho. Também o seu património arquitectónico é vasto e rico. Inserido no património religioso, as capelinhas dos Paços da Paixão, espalhadas pela vila mereceram a minha atenção. Foi pena não poder deambular por aqui mais um pouco.


De novo no "Caminho", pedalei até o corpo acusar algum desgaste, Decidi então parar num fontanário pitoresco a fim de me alimentar e também resguardar-me um pouco do sol, que estava forte.
São Pedro da Torre, Ponte de Chamosinhos
O Caminho Português da Costa segue o percurso da via romana "Per Loca Marítima" até Valença, o percurso é suave, não oferecendo dificuldade de maior. Grande parte do trajecto é paralelo à linha do Minho, entrando em Valença por São Pedro da Torre, um percurso rico em património e natureza com destaque para duas pontes romano / medievais, a de Chamosinhos, em São Pedro da Torre e a de Veiga da Mira, entre São Pedro da Torre e Arão.

Ponte de Chamosinhos
Segundo fonte da Câmara Municipal de Valença, "Os testemunhos históricos de peregrinos e mercadores, neste caminho, são muitos ao longo dos séculos, com destaque para a peregrinação do Rei Dom Manuel I que, na passagem por Valença, em 1502, mandou colocar a Esfera Armilar na Moradia Régia, hoje, Núcleo Museológico na Fortaleza".
Foi a chegar à vila quase deserta de São Pedro da Torres, era Sábado e hora de almoço, que alcancei a jovem israelita do albergue de Caminha, que obriguei a para me tirar uma foto. Sem dúvida levava uma velocidade de andamento fora do comum. 
Estava a terminar o Caminho da Costa e prestes a entrar em Valença e na sua fortaleza abaluartada, prestes a entrar na Galiza. Valença e Tui, face à proximidade, são praticamente a mesma cidade, numa ponte que se estabelece, não só através do ferro, do betão e do aço, mas sobretudo entre galegos e minhotos, entre espanhóis e portugueses.


O Caminho Central  e a variante a "O Porriño"


Praça Forte de Valença
Em Valença confluem o Caminho Central Português e o Caminho da Costa. O Caminho, agora de traçado único, leva-nos para a Fortaleza, que por mais que se visite é sempre um ponto incontornável a visitar, pela sua monumentalidade, posicionamento geográfico, comércio, gastronomia e vida, que tem muita. Ainda consegui encontrar uns minutos para conversar com um antigo colega da Faculdade de Letras de Coimbra. 

Guarita de vigilância

É incontornável não apreciar a fantástica panorâmica que se desfruta sobre o rio Minho e vizinhas terras da Galiza. Ainda na Fortaleza, carimbei a credencial na Pousada de São Teotónio e encetei a descida pelo lageado em direcção à ponte internacional rodo/ferroviária sobre o Minho.



Início do Caminho Português em Tui



Depois de atravessar o rio, já em "Tui" o Caminho leva-nos primeiro para próximo da zona ribeirinha, de onde saímos serpenteando pelas ruas estreitas e inclinadas até chegar finalmente à antiga Catedral. 
O sentido no café e o desejo de relaxar um pouco, levaram-me a um local paradisíaco, sobranceiro ao rio, com uma panorâmica extraordinária sobre o rio, e a monumentalidade de Tui e Valença.



Parque de lazer junto ao Minho - Tui
O  "Le Boulevard", cafetaria situada no coração da cidade, junto à "Glorieta de Vigo", onde se encontra um monumento aos cavalos selvagens, na varanda virada a sul, dispõe de uma admirável panorâmica sobre o rio Minho, local perfeito para desfrutar de um bom livro. É um local incontornável, sempre que visito Tui.
Aproveitei para comer mais um pouco, beber o indispensável "café con leche" e descansar um pouco.

Ponte Internacional Valença-Tui

É altura para falar um pouco do espírito do Caminho. Caminheiro, turista ou peregrino, sabe do que falo. Efectivamente quem faz o Caminho de Santiago sente uma sensação estranha e ao mesmo tempo boa, não se sabe explicar bem de que se trata, mas o certo é que é um sentimento comum aos caminhantes, viajem a pé, de bicicleta ou a cavalo. 



"Le Boulevard, em Tui"

Vale a pena sentir, saber do que se trata, mas, só experimentando. E não se trata de nenhum "cliché" de qualquer invenção produzida para atrair adeptos. Assim convido os meus amigos a ir em direcção a Compostela por terras lusas e hispânicas ao encontro do espírito do Caminho, logo sabereis o que é. Com uma certeza porém, à medida que nos acercamos de terras galegas sente-se com mais intensidade.


Ponte de Veiga
Hoje impunha-se que impusesse um ritmo mais célere  e assim deixei Tui para trás e internei-me pelo fresco do bosque que envolve o rio "Louro", num agradável troço do trajecto. Pedalar assim é fácil, quando a vertente cénica se torna agradável.
Na zona onde se situa a “Ponte de Veiga”, sobre o rio “Louro”, oportunidade para conversar um pouco com duas jovens peregrinas portuguesas que pela primeira vez faziam o Caminho. Evidenciaram bastante entusiasmo com a experiência que agora começavam..

Memorial a D. Telmo
Prossegui pelas margens do rio Louro, abrigado pela vegetação do frondoso bosque que o rodeia, até encontrar o mítico lugar onde se situa a ponte de “San Telmo,  que recebe o sobrenome de “Ponte das Febres”. Neste local é visível uma placa situada na cruz, junto à ponte, alusiva ao patrono de Tui, o Bispo Pedro Telmo, que aqui pereceu, fraco e com febre. Próximo da ponte, em plano de destaque pode ler-se: "caminhante aqui enfermou de morte San Telmo em Abril de 1251 pede-lhe que fale com Deus ao favor teu".

Ponte das Febres
De “Tui” a “Orbenlle”, é, sem desprimor para outros lugares e locais, um  dos troços mais bonitos e agradáveis de fazer do Caminho Português de Santiago.
Este ano optei por seguir entre “Orbenlle” e “O Porriño”, pela variante ao polígono industrial. Um percurso maravilhoso relativamente à desagradável e algo perigosa travessia do polígono, com muito tráfego automóvel e sem vegetação que nos permita resguardar a uma sombra para um momento de descanso.

Passagem da "Puente de Orbenlle"
Em “Orbenlle” são bem visíveis as marcas a negro, procurando ocultar a sinalética que aponta para a variante. Apesar da malvadez daqueles que insistem nos actos de vandalismo, o persistente trabalho dos “Amigos do Caminho” vai permitindo que se possa optar por seguir ao longo do rio “Louro”, resguardados na frescura do bosque, longe do perigo da circulação automóvel no polígono industrial de “O Porriño”, e ao mesmo tempo desfrutando da natureza, onde a água e o verde são imagens predominante, sem dúvida um belo percurso que alimenta a alma do caminhante, peregrino, bicigrino, ou turista, depende do espírito de cada um.

Orbenlle. Variante a "O Porriño".
Indicações vandalizadas. 
Há coisas simples, que em certos momentos representam muito. Em "O Porriño", beber uma coca-cola fresquinha, com uma pequena rodela de limão e umas pedrinhas de gêlo, sentado de forma relaxada numa esplanada foi um momento bastante agradável. 
Sobretudo para quem esgotou o cantil da água e ansiava loucamente por líquidos. Para que a coca-cola não soubesse a pouco bebi primeiro dois valentes copos do líquido mais precioso que pode existir e permite a nossa existência.


Variante a "O Porriño"


Não havia tempo a desperdiçar, embora estivesse a pedalar em bom ritmo, torna-se difícil resistir a uns momentos de pausa para saborear o fresco de uma coca-cola  com gelo e limão. “O Porriño” neste Sábado à tarde, estava plena de gente nas ruas, num ensurdecedor matraquear de palradores galegos. Depois de beber dois copos de água, veio a coca-cola tão ansiada, para repor o açúcar perdido.



Com alguma dificuldade de progressão, atendendo ao elevado número de passeantes, lá segui pelo Caminho, em direcção a “Mos”.
"O Porriño"
Poucos quilómetros separam as localidades de “O Porriño” e “Mos”, No entanto,  aqui chegado, não resisti a entrar no "Alpendre", o mesmo local onde há um ano atrás tinha degustado umas miniaturas de "empanadas galegas" maravilhosas, na companhia dos meus amigos. Os estalajadeiros são  simpáticos, o ambiente acolhedor. Uma parreira sob o terraço da entrada  acrescenta ao edifício de linhas modestas o ar pitoresco, hamoniosamente enquadrado enquadrado na praça, onde se destaca o Palácio ou "Pazo dos Marqueses de Mos". 


"O Alpendre - Mos"
A ameaça da subida da "Rua do Cabaleiros" até à meseta, foi argumento suficiente para não resistir à oferta de um "pincho" e acompanhar com uma loura fresquinha, a famosa “Estrella Galicia”, sem álcool, que me sufragou a sede, acompanhada das últimas duas porções de "empanadas" que me estavam reservadas e que mastiguei devagarinho, saboreando cada dentada em jeito de homenagem ao Joaquim Tavares e ao José Botelho.



"Meseta de Chan de Pipas" 

Como não queria perder ritmo, encetei a subida decidido, passei mesmo por um grupo de ciclistas de Braga, que apesar de mais frescos e leves conheceram a vergonha de ser ultrapassados por um tipo de alforges, a rondar os 10 kg de peso. Ainda mostraram alguma reacção para não ser ultrapassados mas foram ficando para trás na forte subida até ao "Alto do Inxertado".
O "Caminho" segue agora a Via Romana, assinalada pelo miliário de "Vilar da Infesta", atravessando a meseta de "Chan das Pipas".
"Redondela" - Albergue


Após a planície de "Chan das Pipas", descemos até enveredar pela N550, para chegar a Redondela. Próximo do albergue, um enorme desfile motards fez-me aguardar algum tempo para poder prosseguir o Caminho, novamente a subir até ao cume "Eido dos Mouros". O dia aproximava-se a passos largos da noite.
Na descida para Arcade, vieiras.


Ainda pensei que poderia dormir em Pontevedra, mas corria o risco de não encontrar lugar no albergue, e, mesmo que encontrasse, o recolher obrigatório é às 22:00.
Iniciei a descida para Arcade, com uma magnífica panorâmica da Ria de Vigo e à esquerda a mítica ilha de "San Simon". Para além de ter fama de ser a capital das ostras, "Arcade" é uma localidade da Galiza que conjuga talvez como nenhuma outra os sabores campestres e marinheiros.  

Vista de "Arcade"
Não foi difícil encontrar albergue. O "Lar de Pepa" serviu-me de refúgio, nesta altura do ano tinha poucos peregrinos, fui o único ocupante de um quarto com quatro camas, embora tivesse no albergue a companhia de demais peregrinos em outros quartos.
O estalajadeiro era um simpático e prestável lisboeta que se encontrava a dar uma ajuda aos amigos, proprietários do "Lar de Pepa".  



Albergue "Lar de Pepa"
Aqui pude repousar tranquilamente e recuperar do esforço despendido na jornada mais longa deste meu "Caminho", a mais penosa talvez tenha sido entre Marinas e Caminha, pela dureza do percurso predominantemente em calçada. Um prolongado duche, primeiro com cerca de 4 minutos a projectar água fria sobre as pernas, para melhor recuperação e depois sim, a satisfação de sentir a água quente para relaxar o resto do corpo.

Assim, após cumprir 87 km da jornada e como o dia ainda não tinha terminado, uma passeata por "Arcade" a fim de "pinchar" algumas tapas pareceu-me apropriado. No entanto a fadiga estava a vencer e impediu que me alongasse em passeios e assim, o regresso ao "Lar de Pepa" não tardou muito a acontecera, de modo a descansar para enfrentar, com calma, os cerca de 80 km que ainda faltava concluir para a derradeira jornada até Santiago de Compostela.

Pelas Rias Baixas: Puente Sampayo, "Vrea Vella de A Canicouba", Pontevedra.


"Puente Sampaio - Rio Verdugo"
Domingo, 14 de Setembro de 2014. Arcade, após uma tranquila e reconfortante noite de descanso, a manhã apresentava-se cinzenta ameaçando trazer alguma chuva.
"Puente Sampaio"

No “Lar de Pepa”, albergue em que pernoitei depois da extenuante e magnífica jornada de Caminha até Arcade, relatada na Edição 42 da "Passear", mal saí do quarto, abeirei-me do terraço onde contemplei o casario que se estende até à ria de Vigo.

Depois de examinar as nuvens e tentar adivinhar se a chuva me acompanharia na jornada, recolhi ao quarto com o intuito de arrumar os alforges, inspeccionar a bicicleta e, por fim, partir para a derradeira jornada do Caminho Português de Santiago, pela Costa.




"Puente Sampaio, Ponte Nova -Rio Verdugo"
Como no Lar de Pepa não serviam o pequeno almoço, essencial para um bom começo de jornada, em Arcade entrei na "Pasteleria - Bar Acuña", onde me deliciei com um excelente pequeno almoço, indispensável para ajudar a vencer os 80 km que faltavam concluir até Santiago de Compostela, que não se anteviam fáceis, face à possibilidade de ocorrência de muita chuva.

Em "Puente Sampaio" a passagem sobre o rio Verdugo é efectuada através da Ponte Nova, ponte medieval de inegável beleza, construção de elevado valor arquitectónico.  O seu enquadramento e o enorme espelho que as águas do rio proporcionam convidam à  captação de raros instantâneos fotográficos.

Bem no meio da ponte, uma pausa para uns momentos de conversa com duas simpáticas  peregrinas naturais da Galiza, que acederam em captar o momento da minha passagem em Puente Sampaio. Depois de breves momentos de conversa sobre o "Caminho", urgia prosseguir em direcção a Pontevedra.
Peregrinas a Santiago

Com algum esforço lá fui subindo pelo antigo caminho empedrado, até à encruzilhada para “Nuestra Señora de Amil”, por um troço frequentado desde épocas mais remotas e onde são bem visíveis as marcas das rodas dos carros, sulcadas ao longo do tempos nas velhas lousas.






“Vrea Vella da Canicouba”
Os primeiros dez quilómetros, embora com a presença de alguma chuva, foram percorridos com a enorme satisfação de percorrer de bicicleta os trilhos para Santiago. Mesmo enfrentando uma ou outra subida mais árdua, o esforço compensa qualquer sacrifício adicional, que apetece perpetuar, tal a beleza do percurso e a espiritualidade associada, tonifica o todo o esforço desenvolvido, rolongando uma sensação boa no tempo.

A aproximação a Santiago de Compostela é sempre motivo de alegria e satisfação, mas, por outro lado, se pensarmos que é sinónimos de final de “Caminho”, com o inerente regresso ao bulício do quotidiano, então o sentimento é antagónico, advindo daí alguma insatisfação. É o Caminho...

Igreja Peregrina - Pontevedra
Pequenos momentos de conversa sucediam-se à medida que ia passando por peregrinos, cada vez em maior número. Pouco depois de "Puente Sampaio" encontra-se um dos locais mais emblemáticos e interessantes do Caminho Português, a "Vrea Vella de Canicouba" e a velha ponte desaparecida que marcava o início da subida de "A Canicouba". Com  os chuviscos a borrifarem-me o rosto e obrigado a tirar os óculos, subi a bom ritmo, gozando depois a descida para Pontevedra, a rolar a muito boa velocidade.



Ponte do Burgo - Pontevedra

Domingo em Pontevedra, na cidade ainda adormecida, predominava a presença de peregrinos entre os poucos transeuntes e fascinas de estabelecimentos.

Pontevedra dá também o nome à província, capital das “Rias Baixas”. É indubitavelmente uma das cidade históricas da Galiza, detentora de um vasto e valoroso património arquitectónico merecedor da nossa atenção.



Em Santa Maria de Alba
Depois de posar para a foto diante do singular santuário da Virgem Peregrina, segui as vieiras, pela "Ponte do Burgo", deixando para trás Pontevedra. Definitivamente, tinha abandonado a ideia de pedalar pela  Rota do Salnés, Variante Espiritual ao Caminho Português", da qual encontrei as indicações, já fora da urbe, próximo da linha de caminho de ferro.

Resolvi seguir pela rota tradicional, uma vez que a opção pelo Salnés implicaria mais um dia de caminho e ligeira derrapagem nos custos da viagem. Adiei, assim, para uma próxima oportunidade.



Espírito do Caminho
Após a passagem sob a linha do caminho de ferro, depois de uma ligeira subida alcancei a Igreja de “Santa Maria de Alba” com uma imagem do Apóstolo no cemitério. Muito próximo fica o antigo lugar de “Goxilde”, onde o Arcebispo “Xelmírez” descansou com as suas hostes, a caminho de Compostela, depois de efectuar o famoso “Pío Latrocínio” de relíquias em Braga.






Ponto de encontro de peregrinos
Continuando a pedalar na manhã fresca e molhada, o verde sombrio da vegetação convidava ao recolhimento espiritual, mesmo a pedalar, ora pelos bosques de carvalhos, castanheiros e outras espécies, aqui e ali com pequenos cursos de água a completar um quadro paisagístico notável, ora por campos agrícolas tratados com afeição e harmoniosamente dispostos.

O Caminho passa, entre outras, bem no centro das povoações das de Caldas dos Reis, Iria Flavia”, “Padrón”, “Esclavitude”, com a sua fonte milagrosa e o esplendoroso exemplar do barroco que é o “Santuário da Eslavitude”, séc. VII-XVIII.







O encontro com peregrinos foi uma constante
É assim, num cenário único, diversificado e em movimento, que se desenvolve com uma intensidade cada vez mais forte o Espírito do Caminho, seja por convicção religiosa ou outra de diferente natureza. o que importa é sentir o seu efeito.


Peregrinos a Santiago
A forma de estar no Caminho proporciona e apela a conversas espontâneas, entre caminhantes, pessoas que têm seguramente algo em comum: a paixão por "Compostelae" ou Campo da Estrela.

O convívio, a entre ajuda e a solidariedade, estão presentes em todos os que procuram vivências nas peregrinações a Santiago e assim é comum ouvir-se falar do Espírito do Caminho a todos quantos o percorrem ou percorreram.

Um dos momentos mais gratificantes nesta minha última jornada aconteceu numa paragem para reabastecimento alimentar, efectuada no albergue “Catro Canos”, propriedade de Manuel, que junto com a família mantêm este mítico espaço aberto e proporcionam um acolhimento de excelência aos peregrinos, quer no trato ou no repasto.


Em cima: Albergue "Catro Canos", Em baixo: Caldas dos Reis
Enquanto me deliciava com uma porção de saborosa “tortilla”, plantei-me à conversa com Manuel, o estalajadeiro, quase esquecendo o tempo a passar. Se dispusesse de mais tempo livre, teria certamente por ali ficado uma tarde, a conhecer a região circundante.

No “Catro Canos” estão assinalados 24 km na direcção de Ponte Pontevedra e 44 km a Santiago. Somando os cerca de 10 km de Arcade até Pontevedra, significa que já tinha pedalado cerca de 34 km.

Antes de alcançar “Pontecesures” encontrei dois portugueses de Viseu, a fazer pela primeira vez o Caminho de bicicleta, bons conversadores, acabámos por fazer parte do caminho juntos, mas perto do final pedi que fossem andando, uma vez que estava sempre a parar para captar imagens.



Em cima: Concelho de Valga. Em baixo: "Pontecesures", Fonte Santa - "Esclavitude" e Espigueiro 
Em virtude das inúmeras paragens efectuadas, que cortam sempre o ritmo, mesmo ao melhor ciclista, a jornada acabou por ser cansativa, também em razão dos quilómetros acumulados.

Este ano foi algo diferente a chegada a Santiago, não foi possível aceder, como é da tradição, à Praça do “Obradoiro”, a mesma estava cortada devido à última etapa da “Vuelta à España”.o que aliás me pareceu uma ideia irreflectida.
Levar o circo de uma grande prova velocipédica para um espaço de características tão próprias, que nunca deve estar vedado a peregrinos! ... Enfim!…

Com a "Compostela" do Caminho da Costa 2014
Logo que me acerquei das imediações da Catedral, desabou uma chuva copiosa. Carimbei a credencial na Oficina do Peregrino, ainda tentei deambular um pouco pelas ruas, mas em dia de chegada da “Vuelta”, a cidade estava impossível, com imensa gente pelas ruas.

Foi então que decidi partir de imediato em direcção à gare, onde, para além de adquirir bilhete, tratei de providenciar uma pequena refeição, para depois partir de comboio com intenção de pernoitar em Redondela.


Um regresso atribulado, ou uma história dos Caminhos...

De Vigo a A Guarda, por Baiona



Vigo, zona portuária

Às 20:00, iniciei o regresso no comboio da Renfe, nos primeiros minutos de viagem ainda mantive os olhos vigilantes, mas pouco tempo depois não resisti ao cansaço e adormeci ali mesmo na composição. A distracção saiu bem cara, pois pretendia dormir no Albergue de Redondela, para, no dia seguinte, viajar de comboio até Portugal. Ora de repente estou na estação de Vigo, apenas com vinte euros no bolso, a ter que encontrar dormida.

Necessariamente seria preciso algum dinheiro mais para dormir numa pensão, por mais barata que fosse.


Navio de pesca Coimbra na doca de Vigo
Segunda contrariedade, não consegui levantar dinheiro!!! Através do messenger, apelei ao mítico amigo dos Caminhos, José de La Riera, de Muxia, personagem grande da cultura Galega, para ver se me podia ajudar a encontrar algum albergue ou alojamento mais em conta.

Amavelmente disse-me que dormiria em casa dele, só que a mesma dista de Vigo para aí uns 70 km. Mas, não podendo ajudar de outra forma, lembrou-se de me enviar o número de telefone de Luís Freixo, que dirige um Albergue na zona da Ramallosa e tem sido um dos grandes dinamizadores do Caminho da Costa.



No entanto o Luís Freixo não me atendia o telefone. Continuando então a procurar alguns alojamentos, sem sucesso. Fazia já cálculos para regressar de bicicleta, nessa mesma noite, para Portugal, empresa algo arriscada e nada recomendável, quando surgiu a minha salvação.


O Luís devolvia-me a chamada, ante o meu relato, depressa me aconselhou a não seguir de noite de bicicleta. Demasiado arriscado.
Baiona -Forte
Depois de efectuar alguns contactos ligou-me novamente com novidades. Tinha-me conseguido alojamento mais acessível monetariamente na pensão "Três Países", nas imediações do "El Corte Inglês".


Para além de me ter salvo, mais me disse que, caso necessitasse, na manhã seguinte poderia dirigir-me ao "Mezon Plaza", café que habitualmente frequenta, tendo sido o que aconteceu.


Mas no "Mezon Plaza" alguém se esqueceu de passar a palavra e tive que gastar quase tudo o que me restava num parco pequeno almoço.

Com apenas um euro e alguns cêntimos no bolso até chegar a Portugal, decidi empregá-los em fruta e assim abalei para Portugal, em direcção à zona portuária, seguindo depois pelo "Samil", "Ramallosa", Baiona, em suma fiz o percurso inverso do Caminho da Costa, até Caminha.


Mas a generosidade  e sentido prestável do Luís Freixo ainda não tinha ficado por aqui. Quando pedalava a caminho de Baiona, recebi uma mensagem a lamentar o sucedido no Mezon Plaza e que me aguardavam no albergue "Aguncheiro", quando chegasse a Mougas.

Pela ciclovia de Baiona a A Guarda
De Baiona até A Guarda passei um verdadeiro tormento, com o vento Sul pela frente,  bem junto ao mar, quase me apetecia chorar de raiva por não conseguir passar dos 12, 14 km/h, mesmo a descer. Se a paisagem oferecia uma panorâmica deslumbrante, o vento a soprar em sentido adverso constituiu um autêntico pesadelo, mas assim tive que continuar.


E foi assim, a lutar contra o vento que, esgotado, cheguei ao albergue Aguncheiro. Entrei e falei que o amigo Luís Freixo me recomendado ali parar.

De imediato perguntaram o que queria comer, perante a minha modéstia e receio de estar a exorbitar da hospitalidade, insistiram para que comesse algo à minha escolha. Perante algum constrangimento da minha parte serviram-me uma suculenta costeleta de vaca, acompanhada com pimentos de Padrón e batata frita. Jamais esquecerei o Aguncheiro...

"Aguncheiro - em Mougas"
Montar novamente a bicicleta continuou a ser um tormento, o vento não parava. Pedalei, pedalei, pedalei e as pernas mais pareciam dois cepos pesados, com os músculos bem rígidos e disformes.

Finalmente a 1,5 km de A Guarda, apareceu o João Paulo Reis Simões, que me foi resgatar a Caminha, respirei  finalmente de alívio e satisfação.

Não me posso lamentar de falta de apoio dos amigos, neste caso o JPRS, já em 2007, quando finalizei o Caminho Francês, também me transportou de Santiago de Compostela até Coimbra. Agora foi a vez de me A Guarda salvar-me do vento Sul, que afrontava a pobre da Trek.

Espero bem que me acompanhe um dia com a sua bicicleta, quem sabe em 2015? Em 2014 já ensaiou os primeiros 100 km entre Aveiro e Porto.

Santa Maria de Oia
A atormentar a viagem de regresso, entre Baiona e A Guarda, o vento Sul transformou o prazer de pedalar descontraidamente, pela ciclovia, junto à orla marítima, numa autêntica luta titânica. O tremendo esforço desenvolvido a pedalar subtraiu-me a possibilidade de desfrutar da maravilhosa paisagem costeira e ainda me furtou a possibilidade de visitar o Mosteiro de Oia. Mas o balanço final não podia deixar de ser positivo, mesmo com a CP a não permitir que transportasse a bicicleta no comboio, com um pouco de visão preparavam uma carruagem para o efeito, certamente teriam muitos interessados a procurar o serviço.

Por fim os meus agradecimentos a quem me apoiou na empresa solitária, à Sandra Marina, ao João Paulo Simões, José Botelho, Joaquim Tavares, António Pedro, à Carolina e à Mariana, pelas mensagens de incentivo.

Um agradecimento especial a dois amigos da Galiza, o José de La Riera e o Luís Freixo, que me ajudaram numa altura difícil. Obrigado a todos e Bom Caminho.






1 comentário:

Unknown disse...

Disseste bem....."Dor no osso".
UUUUUUUUUUUUUUUUUIIIIIIIIII!!!!!!