De Aveiro ao Porto pela costa.
| Ciclovia da Cortegaça |
No entanto, não consegui resistir a uma forte vontade de seguir as setas amarelas, a partir de um qualquer lugar.
Surgiram duas hipóteses, iniciar a 27 de Setembro a “Via de la Plata”, a partir de Salamanca, cidade irmã de Coimbra, ou, não querendo rumar para tão longe ir até à Invicta e conhecer o Caminho da Costa.
Optei pela segunda e, a 10 de Setembro, na companhia do amigo João Paulo, tomámos a direcção do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra, onde adquiri e carimbei a credencial de peregrino. No entanto, oficialmente apenas comecei a fazer o Caminho da Costa, a partir do Porto, no dia seguinte.
Rumámos até Aveiro, estacionando o automóvel próximo da estação de caminho de ferro, onde montei a bicicleta, desta vez não me esqueci da roda em Coimbra!
Rumámos até Aveiro, estacionando o automóvel próximo da estação de caminho de ferro, onde montei a bicicleta, desta vez não me esqueci da roda em Coimbra!
| Senhora da Pedra |
A partir de Aveiro e ao longo da ria, iniciámos um passeio pelo litoral, pedalando pelas ciclovias existentes e aproveitando para visitar algumas praias: Furadouro, Cortegaça, Esmoriz, Espinho, Senhora da Pedra, Afurada, Gaia e finalmente o Porto, sempre "escoltado" pelo João Paulo, com grande inveja de não me poder continuar a acompanhar, por razões profissionais,
Como não tinha reservado alojamento, pensei que teria de me dirigir o quanto antes à Pousada de Juventude, mas ainda subi à Sé, seguindo as setas amarelas, para carimbar a credencial, e marcar o início oficial do Caminho de Santiago pela Costa.
| Gaia/Porto, final do 1.º dia de ligação. |
Na pousada da juventude ainda houve tempo para fazer alguns amigos, das Canárias, do Brasil e da Irlanda. Ter de cozinhar "raviolli" não teve a mesma graça que no ano de 2013, onde preparei massa com atum para a minha pessoa, para o José e para o Quim.
1.º dia no Caminho Português de Santiago pela Costa, a partir do Porto.
| Senhor do Padrão ou Senhor da Areia - Matosinhos |
Depressa cheguei a Vila do Conde, mesmo com imensas paragens para captar algumas fotos, indispensável reabastecimento e entabuar conversa com um ou outro peregrino.
| Vila do Conde |
Mas, mais grave que a ausência de sinalética é a sua péssima colocação, ainda para mais numa cidade com história inquestionável no âmbito do fenómeno das peregrinações a Santiago.
Ainda em Vila do Conde, para ajudar à festa da “sinalética”, um furo e um raio partido também me subtraíram tempo precioso.
| Fão, foz do Cávado |
| Esposende |
Colocado o raio e desempenada a roda, o amigo Manuel Rocha aconselhou-me a pernoitar no Albergue das Marinhas, pertença da Cruz Vermelha, onde fui extremamente bem acolhido pelas jovens voluntárias. No albergue apenas se encontravam alojados um casal de holandeses e um peregrino proveniente do Porto, também a viajar de bicicleta.
Poucos quilómetros efectuados neste dia, apenas 67, o que envolverá compensações obrigatórias, ao plano inicialmente traçado, de pernoitar em Viana do Castelo, no final do 1.º dia de Caminho.

| A descer para o Neiva |
Terça Feira, 16 de Setembro de 2014
Embora a chuva ameaçasse, uma ligeira brisa e a temperatura amena favoreciam o andamento.
O ritual matutino acaba por ser idêntico, variando apenas de lugar para lugar. Preparar a bicicleta, montar os alforges, este ano um pouco mais pesados que o habitual, aprovisionar água quanto baste e demais utilidades necessárias à jornada.
A primeira boa surpresa do dia surgiu próximo do rio Neiva. Um bonito percurso em terra, estreito e sinuoso, percorrido na companhia de um grupo de Braga, folgados no peso das bicicletas e nos quilómetros. Boa malta.
Em alguns pontos do percurso é mesmo necessário apearmo-nos das bicicletas, ou porque era impossível pedalar ou porque os alforges se soltavam, perante tantos embates, com paragem obrigatória para a sua fixação.
A passagem sobre o Neiva, pela ponte do Sebastião oferece um momento de indiscutível beleza. Após a passagem do rio, continuei nas fotos e agradeci o convite da malta de Braga para os acompanhar, mas este ano estava com outro sentido de Caminho, preferia rolar impondo o meu ritmo, parando quando me apetecesse, ou dar uma sapatada quando necessário. Curiosamente sentia-me em forma, nunca virei a cara a alguma subida mais difícil, também não se encontram muitas por este Caminho da Costa.
| Igreja de Santiago - C. Neiva |
Na descida, uma pequena distracção impediu que tivesse passado no Mosteiro de São Romão. Retomei o Caminho em Chafé, onde coincide com a Estrada Real. Depois foi seguir as setas até Darque e Viana do Castelo, onde a passagem pela ponte Eiffel é sem dúvida um momento apreciado.
Seguir as setas em aglomerados urbanos de alguma dimensão, por vezes é tarefa difícil, especialmente quando a sinalização não é muito evidente. Em Viana, o Caminho está bem sinalizado, no entanto a reduzida dimensão da vieira e das setas pode levar ao engano os peregrinos mais distraídos.
Mas não podia passar em Viana sem uma ida ao Natário. Substituí o almoço por um lanche antecipado, não dispensando a famosa bola de berlim e um saboroso croissant com fiambre.
Saindo de Viana, o caminho envereda entre quintas e ambientes pitorescos, passando junto de antigos penedos gravados, por casas agrícolas, igrejas, capelas, e cruzeiros, abrigado pela frescura das árvores que abundam neste troço.
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| Saindo de Viana |
| O rio em Cabanas, na subida para Agrichouso |
De Cabanas o Caminho sobe a Agrichouso, passando pelo lugar da Pedreira até encontrar o trilho, empedrado, que o conduz até ao cruzeiro do Vale para dali alcançar o lugar da Matança, junto à velha Cividade de Afife, castro ocupado aproximadamente entre 200 a.C. e 200 d.C.
| Cruzeiro da Matança |
Aqui se entra no concelho de Caminha, descendo sempre a direito por caminhos florestais encontramos casario, depois um fontanário, o Cruzeiro Novo e chegamos à Ponte da Torre, de finais do século XVII, com lajes baixas e que, antes da construção da nova estrada real em 1856, permitia a passagem de pessoas e de bens sobre o rio Âncora.
Finalmente Vila Praia de Âncora, por entre campos de cultivos e por antigos troços lajeados, alcanço a rua Miguel Bombarda, eixo de ligação entre as comunidades agrícola, comercial e piscatória locais.
| Festividades em Âncora |
Na Praça da República, onde se pode admirar a artística capela da Sra. da Bonança, padroeira dos pescadores, decorrem com grande animação as festividades de Setembro com ponto alto na procissão naval com a solene bênção das embarcações.
Na antiga via romana, podem encontrar-se na areia até à chegada da zona urbana de Moledo, alguns vestígios de instrumentos datáveis entre 15 000 e 10 000 a.C., salinas romanas e medievais, camboas para aprisionamento de peixe e flora dunar autóctone.
Continuando a pedalar, entro em Caminha através do antigo Caminho de Viana, hoje rua dos Pescadores, de casario baixo e típico, saúdo duas peregrinas espanholas, com quem entabulei breves minutos de conversa.
| às portas de Caminha |
Ultrapassada a Torre do Relógio, segui pela rua Direita ou dos "Meyos", eixo vertebral do amuralhado medieval, e, ao longo das ruas estreitas, forradas a lajes gastas pelo tempo, alcanço o albergue de peregrinos, onde um simpático casal de hospitaleiros voluntários saúda a minha chegada. Informo que virão por certo mais duas peregrinas.
Decidi voltar atrás, a fim de poder indicar mais rapidamente o albergue às peregrinas com quem falei, mas o desencontro fez com que chegassem ao albergue sem necessitar da minha ajuda. Fui informado pelo casal de hospitaleiros que apenas eu, as peregrinas espanholas, uma jovem israelita e eles mesmos, seríamos os únicos ocupantes do albergue.
Combinei com as duas chicas fazer pasta com atum, e assim se cozinhou o jantar, acabando ainda por sobrar alguma comida.
| O Monte de Santa Tecla- A Guarda |
Procurando fazer um balanço sucinto, apesar de poucos quilómetros percorridos, cerca de 63, a jornada foi sem dúvida gratificante, o enquadramento cénico do trajecto, paisagem tipicamente minhota, é formidável, a disponibilidade física encontrava níveis satisfatórios, apesar da dureza do Caminho, com muita pedra, ora tratando-se de paralelos ou lajeados ainda mais agressivos, face à suas formas irregulares.
| Igreja de Seixas |
Gosto de pensar que tudo correu a preceito e não impedi ninguém de dormir, com incómodo ressonar.
A jovem israelita foi a primeira a madrugar, e cedo colocou pés ao "Caminho". Também me despachei, mesmo sem o José Botelho e o Joaquim Tavares, companheiros habituais de anos anteriores, a atazanarem-me os ouvidos, consegui sair cedo. Era imperioso recuperar quilómetros. Não podia voltar a preguiçar como no primeiro dia, logo após a saída do Porto.
| Rio Minho |
Chegado ao cais do rio Minho, onde pensei efectuar a travessia do rio para A Guarda, e percorrer o Caminho da Costa por "Oia", "Baiona", "Ramallosa", "O Freixo" e "Vigo", apanhando em "Redondela" o Caminho Central, mudei de ideias e optei seguir o Caminho até Valença.
| Cruzeiro - Monte de Góios |
O "ferry-boat" que habitualmente efectua a travessia do Minho não se encontrava operacional, a alternativa seria recorrer ao bote de um pescador local, caso tivesse decidido seguir por "A Guarda". No entanto como o transporte da bicicleta no comboio, a partir de Vigo, não se antevia fácil, decidi deixar em aberto a hipótese de fazer o Caminho pela Costa em sentido inverso, por Vigo, Ramallosa, Baiona Santa Maria de Oia e A Guarda, para o regresso a Portugal.
| Vista sob o Solar da Loureira |
À saída de Caminha, num parque de merendas, reencontrei as peregrinas da Catalunha, tirámos a tradicional foto em conjunto. O Caminho leva-nos agora em direcção a Seixas, atravessando a ponte sobre o rio Coura e ladeando a EN13, as marcações apontam para o interior da freguesia, pelo meio do casario, e alguns metros à frente podemos encontrar a igreja paroquial e o seu cruzeiro.
Pedalei na direcção da via-férrea, a qual atravessei por um pequeno túnel, o "Caminho" prossegue agora por um arruamento em calçada, junto à zona ribeirinha do rio Minho, num cenário verdadeiramente digno de assinalar.
Segue depois para Lanhelas, por entre ruas ora em calçada regular ora em troços de pedras mais largas e lageadas.
| Panorâmica sob o rio Minho |
Continuando pelos bonitos, mas difíceis arruamentos em calçada, o Caminho penetra no concelho de Vila Nova de Cerveira pelo sopé do Monte de Góios, e assim vou serpenteando entre o casario tradicional, respirando por uma atmosfera idílica, para quem gosta de coisas simples, com uma satisfação enorme de penetrar no coração de uma região com uma beleza natural deslumbrante predominantemente verde, plena de um magnífico património arquitectónico rural que caracteriza muito bem a sua singularidade.
| O "Caminho" no Paço do Outeiral |
Já na freguesia de Gondarém duas edificações setecentistas prenderam-me a atenção pela traça arquitectónica e privilegiada localização sobranceira ao rio Minho, primeiro o Solar da Loureira, e, poucos metros mais à frente, o Paço do Outeiral, onde o percurso contorna a propriedade por um interessante caminho em calçada, designado como Caminho de Santiago.
O Paço do Outeiral é uma edificação de estilo setecentista, agora transformada em estalagem e que outrora dispunha no seu interior de uma pequena hospedaria exclusivamente dedicada a acolher peregrinos a Santiago. A ampla quinta que o rodeia possui férteis terrenos agrícolas e vinhedos que auto sustentam a estalagem.
O Caminho é ladeado por um paredão em granito que sustenta um aqueduto, ligado ao edifício por meio de um arco adossado, constituindo sem dúvida um recanto pitoresco.
| Aqueduto no Paço do Outeiral |
O Caminho é ladeado por um paredão em granito que sustenta um aqueduto, ligado ao edifício por meio de um arco adossado, constituindo sem dúvida um recanto pitoresco.
Continuando a pedalar pelas ruas em calçada, imprimi ritmo mais forte e rapidamente cheguei a Cerveira, apesar da dureza do piso. Sábado é dia de feira em Vila Nova de Cerveira, a vila é literalmente invadida por vizinhos do lado de cá e de lá da fronteira. É impressionante o mar de gente que acorre à povoação a fim de visitar a enorme feira, onde se vende de tudo.
A necessidade de proceder ao reabastecimento alimentar levou-me ao mercado local onde comprei fruta e a um supermercado onde completei as compras para as indispensáveis refeições.
A necessidade de proceder ao reabastecimento alimentar levou-me ao mercado local onde comprei fruta e a um supermercado onde completei as compras para as indispensáveis refeições.
| Cerveira e as capelinhas dos Passos da Paixão |
De novo no "Caminho", pedalei até o corpo acusar algum desgaste, Decidi então parar num fontanário pitoresco a fim de me alimentar e também resguardar-me um pouco do sol, que estava forte.
| São Pedro da Torre, Ponte de Chamosinhos |
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| Ponte de Chamosinhos |
Foi a chegar à vila quase deserta de São Pedro da Torres, era Sábado e hora de almoço, que alcancei a jovem israelita do albergue de Caminha, que obriguei a para me tirar uma foto. Sem dúvida levava uma velocidade de andamento fora do comum.
Estava a terminar o Caminho da Costa e prestes a entrar em Valença e na sua fortaleza abaluartada, prestes a entrar na Galiza. Valença e Tui, face à proximidade, são praticamente a mesma cidade, numa ponte que se estabelece, não só através do ferro, do betão e do aço, mas sobretudo entre galegos e minhotos, entre espanhóis e portugueses.
O Caminho Central e a variante a "O Porriño"
| Praça Forte de Valença |
| Guarita de vigilância |
É incontornável não apreciar a fantástica panorâmica que se desfruta sobre o rio Minho e vizinhas terras da Galiza. Ainda na Fortaleza, carimbei a credencial na Pousada de São Teotónio e encetei a descida pelo lageado em direcção à ponte internacional rodo/ferroviária sobre o Minho.
| Início do Caminho Português em Tui |
Depois de atravessar o rio, já em "Tui" o Caminho leva-nos primeiro para próximo da zona ribeirinha, de onde saímos serpenteando pelas ruas estreitas e inclinadas até chegar finalmente à antiga Catedral.
O sentido no café e o desejo de relaxar um pouco, levaram-me a um local paradisíaco, sobranceiro ao rio, com uma panorâmica extraordinária sobre o rio, e a monumentalidade de Tui e Valença.
| Parque de lazer junto ao Minho - Tui |
Aproveitei para comer mais um pouco, beber o indispensável "café con leche" e descansar um pouco.
| Ponte Internacional Valença-Tui |
É altura para falar um pouco do espírito do Caminho. Caminheiro, turista ou peregrino, sabe do que falo. Efectivamente quem faz o Caminho de Santiago sente uma sensação estranha e ao mesmo tempo boa, não se sabe explicar bem de que se trata, mas o certo é que é um sentimento comum aos caminhantes, viajem a pé, de bicicleta ou a cavalo.
| "Le Boulevard, em Tui" |
Vale a pena sentir, saber do que se trata, mas, só experimentando. E não se trata de nenhum "cliché" de qualquer invenção produzida para atrair adeptos. Assim convido os meus amigos a ir em direcção a Compostela por terras lusas e hispânicas ao encontro do espírito do Caminho, logo sabereis o que é. Com uma certeza porém, à medida que nos acercamos de terras galegas sente-se com mais intensidade.
| Ponte de Veiga |
Na zona onde se situa a “Ponte de Veiga”, sobre o rio “Louro”, oportunidade para conversar um pouco com duas jovens peregrinas portuguesas que pela primeira vez faziam o Caminho. Evidenciaram bastante entusiasmo com a experiência que agora começavam..
| Memorial a D. Telmo |
| Ponte das Febres |
Este ano optei por seguir entre “Orbenlle” e “O Porriño”, pela variante ao polígono industrial. Um percurso maravilhoso relativamente à desagradável e algo perigosa travessia do polígono, com muito tráfego automóvel e sem vegetação que nos permita resguardar a uma sombra para um momento de descanso.
| Passagem da "Puente de Orbenlle" |
| Orbenlle. Variante a "O Porriño". Indicações vandalizadas. |
Sobretudo para quem esgotou o cantil da água e ansiava loucamente por líquidos. Para que a coca-cola não soubesse a pouco bebi primeiro dois valentes copos do líquido mais precioso que pode existir e permite a nossa existência.
| Variante a "O Porriño" |
Não havia tempo a desperdiçar, embora estivesse a pedalar em bom ritmo, torna-se difícil resistir a uns momentos de pausa para saborear o fresco de uma coca-cola com gelo e limão. “O Porriño” neste Sábado à tarde, estava plena de gente nas ruas, num ensurdecedor matraquear de palradores galegos. Depois de beber dois copos de água, veio a coca-cola tão ansiada, para repor o açúcar perdido.
Com alguma dificuldade de progressão, atendendo ao elevado número de passeantes, lá segui pelo Caminho, em direcção a “Mos”.
| "O Porriño" |
| "O Alpendre - Mos" |
| "Meseta de Chan de Pipas" |
Como não queria perder ritmo, encetei a subida decidido, passei mesmo por um grupo de ciclistas de Braga, que apesar de mais frescos e leves conheceram a vergonha de ser ultrapassados por um tipo de alforges, a rondar os 10 kg de peso. Ainda mostraram alguma reacção para não ser ultrapassados mas foram ficando para trás na forte subida até ao "Alto do Inxertado".
O "Caminho" segue agora a Via Romana, assinalada pelo miliário de "Vilar da Infesta", atravessando a meseta de "Chan das Pipas".
| "Redondela" - Albergue |
Após a planície de "Chan das Pipas", descemos até enveredar pela N550, para chegar a Redondela. Próximo do albergue, um enorme desfile motards fez-me aguardar algum tempo para poder prosseguir o Caminho, novamente a subir até ao cume "Eido dos Mouros". O dia aproximava-se a passos largos da noite.
| Na descida para Arcade, vieiras. |
Ainda pensei que poderia dormir em Pontevedra, mas corria o risco de não encontrar lugar no albergue, e, mesmo que encontrasse, o recolher obrigatório é às 22:00.
Iniciei a descida para Arcade, com uma magnífica panorâmica da Ria de Vigo e à esquerda a mítica ilha de "San Simon". Para além de ter fama de ser a capital das ostras, "Arcade" é uma localidade da Galiza que conjuga talvez como nenhuma outra os sabores campestres e marinheiros.
| Vista de "Arcade" |
O estalajadeiro era um simpático e prestável lisboeta que se encontrava a dar uma ajuda aos amigos, proprietários do "Lar de Pepa".
| Albergue "Lar de Pepa" |
Assim, após cumprir 87 km da jornada e como o dia ainda não tinha terminado, uma passeata por "Arcade" a fim de "pinchar" algumas tapas pareceu-me apropriado. No entanto a fadiga estava a vencer e impediu que me alongasse em passeios e assim, o regresso ao "Lar de Pepa" não tardou muito a acontecera, de modo a descansar para enfrentar, com calma, os cerca de 80 km que ainda faltava concluir para a derradeira jornada até Santiago de Compostela.
Pelas Rias Baixas: Puente Sampayo, "Vrea Vella de A Canicouba", Pontevedra.
| "Puente Sampaio - Rio Verdugo" |
| "Puente Sampaio" |
No “Lar de Pepa”, albergue em que pernoitei depois da extenuante e magnífica jornada de Caminha até Arcade, relatada na Edição 42 da "Passear", mal saí do quarto, abeirei-me do terraço onde contemplei o casario que se estende até à ria de Vigo.
Depois de examinar as nuvens e tentar adivinhar se a chuva me acompanharia na jornada, recolhi ao quarto com o intuito de arrumar os alforges, inspeccionar a bicicleta e, por fim, partir para a derradeira jornada do Caminho Português de Santiago, pela Costa.
| "Puente Sampaio, Ponte Nova -Rio Verdugo" |
Em "Puente Sampaio" a passagem sobre o rio Verdugo é efectuada através da Ponte Nova, ponte medieval de inegável beleza, construção de elevado valor arquitectónico. O seu enquadramento e o enorme espelho que as águas do rio proporcionam convidam à captação de raros instantâneos fotográficos.
Bem no meio da ponte, uma pausa para uns momentos de conversa com duas simpáticas peregrinas naturais da Galiza, que acederam em captar o momento da minha passagem em Puente Sampaio. Depois de breves momentos de conversa sobre o "Caminho", urgia prosseguir em direcção a Pontevedra.
| Peregrinas a Santiago |
Com algum esforço lá fui subindo pelo antigo caminho empedrado, até à encruzilhada para “Nuestra Señora de Amil”, por um troço frequentado desde épocas mais remotas e onde são bem visíveis as marcas das rodas dos carros, sulcadas ao longo do tempos nas velhas lousas.
| “Vrea Vella da Canicouba” |
A aproximação a Santiago de Compostela é sempre motivo de alegria e satisfação, mas, por outro lado, se pensarmos que é sinónimos de final de “Caminho”, com o inerente regresso ao bulício do quotidiano, então o sentimento é antagónico, advindo daí alguma insatisfação. É o Caminho...
| Igreja Peregrina - Pontevedra |
| Ponte do Burgo - Pontevedra |
Domingo em Pontevedra, na cidade ainda adormecida, predominava a presença de peregrinos entre os poucos transeuntes e fascinas de estabelecimentos.
Pontevedra dá também o nome à província, capital das “Rias Baixas”. É indubitavelmente uma das cidade históricas da Galiza, detentora de um vasto e valoroso património arquitectónico merecedor da nossa atenção.
| Em Santa Maria de Alba |
Resolvi seguir pela rota tradicional, uma vez que a opção pelo Salnés implicaria mais um dia de caminho e ligeira derrapagem nos custos da viagem. Adiei, assim, para uma próxima oportunidade.
Espírito do Caminho |
| Ponto de encontro de peregrinos |
O Caminho passa, entre outras, bem no centro das povoações das de Caldas dos Reis, Iria Flavia”, “Padrón”, “Esclavitude”, com a sua fonte milagrosa e o esplendoroso exemplar do barroco que é o “Santuário da Eslavitude”, séc. VII-XVIII.
| O encontro com peregrinos foi uma constante |
| Peregrinos a Santiago |
O convívio, a entre ajuda e a solidariedade, estão presentes em todos os que procuram vivências nas peregrinações a Santiago e assim é comum ouvir-se falar do Espírito do Caminho a todos quantos o percorrem ou percorreram.
Um dos momentos mais gratificantes nesta minha última jornada aconteceu numa paragem para reabastecimento alimentar, efectuada no albergue “Catro Canos”, propriedade de Manuel, que junto com a família mantêm este mítico espaço aberto e proporcionam um acolhimento de excelência aos peregrinos, quer no trato ou no repasto.
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| Em cima: Albergue "Catro Canos", Em baixo: Caldas dos Reis |
No “Catro Canos” estão assinalados 24 km na direcção de Ponte Pontevedra e 44 km a Santiago. Somando os cerca de 10 km de Arcade até Pontevedra, significa que já tinha pedalado cerca de 34 km.
Antes de alcançar “Pontecesures” encontrei dois portugueses de Viseu, a fazer pela primeira vez o Caminho de bicicleta, bons conversadores, acabámos por fazer parte do caminho juntos, mas perto do final pedi que fossem andando, uma vez que estava sempre a parar para captar imagens.
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| Em cima: Concelho de Valga. Em baixo: "Pontecesures", Fonte Santa - "Esclavitude" e Espigueiro |
Este ano foi algo diferente a chegada a Santiago, não foi possível aceder, como é da tradição, à Praça do “Obradoiro”, a mesma estava cortada devido à última etapa da “Vuelta à España”.o que aliás me pareceu uma ideia irreflectida.
Levar o circo de uma grande prova velocipédica para um espaço de características tão próprias, que nunca deve estar vedado a peregrinos! ... Enfim!…
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| Com a "Compostela" do Caminho da Costa 2014 |
Foi então que decidi partir de imediato em direcção à gare, onde, para além de adquirir bilhete, tratei de providenciar uma pequena refeição, para depois partir de comboio com intenção de pernoitar em Redondela.
Um regresso atribulado, ou uma história dos Caminhos...
De Vigo a A Guarda, por Baiona
| Vigo, zona portuária |
Às 20:00, iniciei o regresso no comboio da Renfe, nos primeiros minutos de viagem ainda mantive os olhos vigilantes, mas pouco tempo depois não resisti ao cansaço e adormeci ali mesmo na composição. A distracção saiu bem cara, pois pretendia dormir no Albergue de Redondela, para, no dia seguinte, viajar de comboio até Portugal. Ora de repente estou na estação de Vigo, apenas com vinte euros no bolso, a ter que encontrar dormida.
Necessariamente seria preciso algum dinheiro mais para dormir numa pensão, por mais barata que fosse.
| Navio de pesca Coimbra na doca de Vigo |
Amavelmente disse-me que dormiria em casa dele, só que a mesma dista de Vigo para aí uns 70 km. Mas, não podendo ajudar de outra forma, lembrou-se de me enviar o número de telefone de Luís Freixo, que dirige um Albergue na zona da Ramallosa e tem sido um dos grandes dinamizadores do Caminho da Costa.
No entanto o Luís Freixo não me atendia o telefone. Continuando então a procurar alguns alojamentos, sem sucesso. Fazia já cálculos para regressar de bicicleta, nessa mesma noite, para Portugal, empresa algo arriscada e nada recomendável, quando surgiu a minha salvação.
O Luís devolvia-me a chamada, ante o meu relato, depressa me aconselhou a não seguir de noite de bicicleta. Demasiado arriscado.
| Baiona -Forte |
Para além de me ter salvo, mais me disse que, caso necessitasse, na manhã seguinte poderia dirigir-me ao "Mezon Plaza", café que habitualmente frequenta, tendo sido o que aconteceu.
Mas no "Mezon Plaza" alguém se esqueceu de passar a palavra e tive que gastar quase tudo o que me restava num parco pequeno almoço.
Com apenas um euro e alguns cêntimos no bolso até chegar a Portugal, decidi empregá-los em fruta e assim abalei para Portugal, em direcção à zona portuária, seguindo depois pelo "Samil", "Ramallosa", Baiona, em suma fiz o percurso inverso do Caminho da Costa, até Caminha.
Mas a generosidade e sentido prestável do Luís Freixo ainda não tinha ficado por aqui. Quando pedalava a caminho de Baiona, recebi uma mensagem a lamentar o sucedido no Mezon Plaza e que me aguardavam no albergue "Aguncheiro", quando chegasse a Mougas.
| Pela ciclovia de Baiona a A Guarda |
E foi assim, a lutar contra o vento que, esgotado, cheguei ao albergue Aguncheiro. Entrei e falei que o amigo Luís Freixo me recomendado ali parar.
De imediato perguntaram o que queria comer, perante a minha modéstia e receio de estar a exorbitar da hospitalidade, insistiram para que comesse algo à minha escolha. Perante algum constrangimento da minha parte serviram-me uma suculenta costeleta de vaca, acompanhada com pimentos de Padrón e batata frita. Jamais esquecerei o Aguncheiro...
| "Aguncheiro - em Mougas" |
Finalmente a 1,5 km de A Guarda, apareceu o João Paulo Reis Simões, que me foi resgatar a Caminha, respirei finalmente de alívio e satisfação.
Não me posso lamentar de falta de apoio dos amigos, neste caso o JPRS, já em 2007, quando finalizei o Caminho Francês, também me transportou de Santiago de Compostela até Coimbra. Agora foi a vez de me A Guarda salvar-me do vento Sul, que afrontava a pobre da Trek.
Espero bem que me acompanhe um dia com a sua bicicleta, quem sabe em 2015? Em 2014 já ensaiou os primeiros 100 km entre Aveiro e Porto.
| Santa Maria de Oia |
Por fim os meus agradecimentos a quem me apoiou na empresa solitária, à Sandra Marina, ao João Paulo Simões, José Botelho, Joaquim Tavares, António Pedro, à Carolina e à Mariana, pelas mensagens de incentivo.
Um agradecimento especial a dois amigos da Galiza, o José de La Riera e o Luís Freixo, que me ajudaram numa altura difícil. Obrigado a todos e Bom Caminho.





1 comentário:
Disseste bem....."Dor no osso".
UUUUUUUUUUUUUUUUUIIIIIIIIII!!!!!!
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